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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Ouvir as flores

© João M. Pereirinha | Flores

Vivemos tempos conturbados. São as contas da república, o défice das emoções, a propagação dos ódios, as ofensas dos dogmas. O espaço público está cheio de limites contraditórios com a própria liberdade.
 
Às vezes, mais vale silenciar o mundo. Vivo perplexo com a ignorância que emerge da nossa sabedoria. São os abusos, as recriminações, as exigências, o barulho e o burburinho dos boatos, dos diz-que-disse, as trocas de ofensas. Às vezes, mais vale conversar com as flores.
 
As flores são sábias, sem ninguém precisar de lhes ensinar nada. Ainda assim, não há ninguém que as represente. E é um erro, claro está, pensar que elas todas são homogéneas na sua composição.
 
Há aquelas de que todos se lembram, as revolucionárias e as apaixonadas e espinhosas. Há as indecisas, aquelas que formam coroas de despedida e saudades e as que servem de juras ou compromissos certos. Mas das outras, delicadas ou nem por isso, esporádicas ou mais resilientes, poucos se lembram.
 
Há até ruas dedicadas ao mais variado tipo de flores, ou somente às flores de forma genérica. Há mulheres que são comparadas com flores. Há concursos de flores. Há partidos que roubaram a imagem às flores e romances, contos e peças de teatro, poemas e odes que reivindicam o amor das flores. Algumas até emprestam o seu nome às mulheres. Mas das flores, nunca ninguém ouviu um ai, um pio, um queixume rezingão, uma carta anónima, um comentário em caixa, um insulto ou uma reivindicação de respeito pelos seus direitos, que as flores também os têm, com certeza.
 
Nada, ninguém ouve as flores. Eu tento. Abeiro-me delas, na rua onde as há, nos alegretes onde as colhem, no campo onde andam selvagens. São tão belas, livres e vivas as flores selvagens.
 
Elas também se queixam, baixinho. Queixam-se da secura na época da chuva, ou do excesso de chuva. Do inferno na época da secura, ou da falta de calor na mesma. Da solidão das abelhas, da falta do pólen. Elas queixam-se do nosso abuso sobre elas. Mas elas, sempre belas, ignoram os ciúmes e a esperança que tantos de nós depositamos nelas. São felizes, por isso.
 
Nem sempre consigo. Mas sempre que posso, procuro ouvir as flores da minha vida.

 

Imagem © João M. Pereirinha | Flores | Vila Viçosa

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