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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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Batman – Qualquer um pode ser um herói!

 

 

«Still of Christian Bale, "O Cavaleiro das Trevas Renasce"» in IMDB

 



Ir ver o último filme da saga Batman realizado por Christopher Nolan, O Cavaleiro das Trevas Renasce, é uma autêntica experiência. Voltar e tentar resumi-lo é infantil. Resumi-lo aos efeitos especiais é demasiado redutor. Ficar de boca aberta mesmo à beira do final com a sala toda em silêncio, sem um único estalar de pipoca, é natural!

 

Em O Homem Duplicado de José Saramago, a personagem principal acredita que os efeitos especiais e fantasiosos empreendidos no cinema toldam a imaginação, bloqueiam a nossa capacidade de imaginar um outro mundo, porque nos apresentam esse mundo concretizado. Para mim, o maior desafio da nossa imaginação perante os efeitos e os mundos imaginários criados no cinema, reside precisamente na capacidade de concebermos esses mundos. Tal qual como no teatro assumimos o contracto de que aquele palco é a Roma Antiga, também na sala de cinema temos que ver o que está na tela como sendo o que está na tela. Isto é, aquilo existe, nem que seja apenas durante hora e meia, porque está ali à minha frente.   Depois, a utilização das novas tecnologias em prol da construção de mundos e fantasias, como neste caso de Gotham City, não é mais do que a utilização da câmara – também ela uma tecnologia – há cem anos, fosse para construir filmes ou para tirar fotografias. No meu entender não há nada mais natural que um artista utilizar todos os meios que ache convenientes para a criação de uma obra. Caso contrário, também os pintores, os escultores, músicos, escritores, teriam que pôr cinco séculos de avanço tecnológico, em todas as vertentes, no lixo. Melhor, caso contrário não existiria sequer Arte. Gostar ou não dos efeitos laboriosos proporcionados pela tecnologia digital é simplesmente isso, uma questão de gosto e não uma verdadeira questão para a Arte.

 

E Nolan sabe bem como utilizar os avanços tecnológicos em prol da sua obra, e não abdica da criação de quase tudo o que seja necessário para nos dar a ver a dimensão do poder de ambas as forças em duelo na tela. O filme começa com o ataque aéreo a uma aeronave da CIA. À moda dos salteadores de barco que saltam da embarcação pirata para os navios mercantes, aqui também os soldados de Bane se jogam de outro avião para este, numa sequência de ação, diálogo e alguns tiros que terminam com o rapto do cientista russo Dr. Pavel (Alon Aboutboul), antes capturado pelos primeiros, e o desfragmentar de toda a aeronave que se despenha finalmente. Por mais que se possa dizer que a montagem de sequências é ou possa parecer complicada, a verdade é dá para perceber perfeitamente o que acontece: o cientista é raptado e a sua morte é simulada; o avião é desfeito simulando uma queda acidental, ficamos a conhecer o inimigo da cidade e do mundo: Bane (Tom Hardy).

 

“Foste promovido a Detetive, agora já não podes acreditar em coincidências”, são as palavras do Comissário Gordon (Gary Oldman) para o antes polícia Blake (Joseph Gordon-Levitt). Estas aliás serão repetidas mais umas quantas vezes antes e depois em todo o filme. De facto, se há coisa que não existe em toda esta saga são coincidências. Dificil mesmo será conseguir enumera-las todas. Mas a verdade é que o trabalho que o realizador faz na conclusão desta saga é a montagem de um gigantesco puzzle que faz encaixar todos os sentidos de cada frase durante este filme, fechando todas as pontas soltas dos dois filmes anteriores, reforçando o jogo duplo deste herói que “pode ser qualquer um” – palavras de Batman (Christian Bale) mesmo no final – e criando algo completamente novo sem fugir à memória da banda desenhada original que inspira toda a obra. Ou seja, não é por acaso que se vai buscar Bane para terminar esta saga. Pois, esta personagem, é conhecida na banda desenhada precisamente por ter partido as costas ao super-herói nas edições de 1993, considerado precisamente como o vilão mais forte e ao mesmo tempo inteligente e perspicaz que Bataman enfrenta.

 

Ora, não posso aqui comentar todo o filme, passo a passo, pois estaria a tirar o prazer de o ver a muita gente. Contudo, para que não fique a meio caminho há coisas que não posso deixar de comentar. Ao assistir este filme podemos ficar tentados a dizer que há alguma intenção em recriar a memória do ataque terrorista às torres gémeas, 11 de Setembro de 2001, pelo ataque ao estádio de Futebol. Ou alguma intenção de criticar o sistema financeiro pelo ataque à bolsa para saquear o dinheiro e ações de Bruce Wayne. Ou até mesmo uma tentativa de crítica ao sistema democrático pela entrega, ilusória, do poder diretamente ao povo. Não digo que tais ilações não possam ter o seu quê de fundamento, porém, do meu ponto de vista, isso é não ver o filme pelo filme. É cair na tentação de assumir que estamos perante uma hipotética mensagem educativa escondida pelo véu de uma história que o realizador se deu ao trabalho de construir para a representar. Acredito e concluo, isso sim, que todos os pontos se justificam por si próprios, na narrativa e no contexto. São pontos necessários para atingir o fim por parte de quem os concretiza.

 

No fundo o que o realizador frequentemente nos apresenta aqui, com esta sua interpretação do mítico morcego humano, é um enorme jogo de espelhos, de duplos. Os homens são, as personagens e a população, e constituem duplos de si próprios. Bruce vive o dilema de deixar os louros nos ombros de um falso herói e o mal fadado fardo de anti-herói nas costas na figura de Batman, enterrado há oito anos assim como a sua própria vida de eremita coxo. A paz, na cidade, também essa existe mas é podre, fraca e enfraquece todos os que sob ela descansam, incluindo a personagem principal. A sua empresa pode falir a qualquer momento, não gera lucros, nem consegue sequer ajudar os mais carenciados. É a segurança de que no passa nada que o deixa fraco, algo evidenciado na luta direta com Bane, da mesma forma que, quando preso no infernal calabouço, ao tentar escalar para sair do poço não consegue concretizar os seus intentos pois: a sua queda está segura pela corta. Tudo vai tendo um duplo significado e poucas coisas são concretas ou lineares. Assim se veja o caso da ladra mais famosa de toda a banda desenha. Pese embora o facto de ser uma ladra, Catwoman/Selina (Anne Hathaway) não representa aqui nem o bem nem o mal. Está no meio caminho onde a salvação parece ainda possível e onde os seus atos acabam por ter uma justificação moral: a sobrevivência.

 

O próprio Bruce vê-se aqui abraços com o dilema acerca das suas capacidades e qual o caminho correto, ideal, eficaz, para salvar novamente a cidade. Será que as suas probabilidades são mais altas enquanto samurai mascarado, com ética e princípios morais, ou enquanto empresário multimilionário excêntrico? Mais uma vez a resposta será complicada de obter. Se em dada altura a resposta parece ser que em ambos as probabilidades são baixas, a conclusão acaba por ser que: as duas formas são viáveis! A cidade também, enquanto cosmos, é dupla de si mesma. Na superfície reina a tranquilidade há oito anos, enquanto no subsolo se escava o precipício que engolirá todos os princípios, todas – quase todas – as forças policiais e a própria cidade que, após a tomada do controlo pelos soldados do excomungado de Ra's al Ghul (Liam Neeson) – mentor de Bruce, morto no primeiro filme – vê nascer uma multiplicidade de duplos.

 

Se, aqueles que acompanharam a BD e os desenhos animados, estamos claramente à espera que Bane seja derrotado através do seu ponto fraco, a sua máscara, à última hora o jogo inverte-se novamente. E, afinal, o vilão é uma vilã, a filha de Ra's al Ghul (que não irei revelar quem é) e o herói que torna tudo possível afinal é uma heroína na pele da melhor interpretação que já vi de Catwoman. Por isso mesmo, no instante em que o perspicaz Blake tenta reconfortar as crianças no autocarro para as proteger da verdade aterradora acerca da explosão nuclear eminente, Batman afirma que “qualquer um pode ser um herói” – acrescenta ainda “até mesmo um polícia que mete um casaco aos ombros de uma criança” revelando a sua identidade ao comissário – e parte em direção ao horizonte. É nestes momentos que se deve olhar para o público, que é um elemento fundamental de qualquer espetáculo. A expressão na cara dos espectadores, ao ver desaparecer Batman, era a mesma de Blake na tela de cinema. Todos somos tocados até às entranhas por aquele sentimento. E, no final, Bruce Wayne também se torna um herói para com os órfãos, enquanto Bruce Wayne. Ainda enquanto ele mesmo, consegue ultrapassar o seu dilema interior, da forma que o seu companheiro Alfred (Michael Caine) lhe pede insistentemente e ficamos ainda com o vislumbrar do surgimento de outro mascarado: Robin. Ele, que pode ser qualquer um! 

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