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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Estado de Emergência



 

Chegámos enfim a este ponto. Um Estado endividado até aos cabelos. Famílias penhoradas e endividadas até ao teto, os poucos que ainda têm teto. Um Governo eleito numa abstenção colossal, que faz quase tudo o contrário do que anunciou na sua campanha – mesmo quando cumpre, como o caso de ser constituído por poucos ministros, extravasa a promessa ao subdividir-se em vários assessores, secretários e especialistas – e que impõe medidas de contenção, isto é, de extorsão social dos cidadãos por via de impostos, ainda mais calamitosas do que as impostas mesmo pelos seus credores. Mesmo quando, os mesmos credores, se mostram benevolentes, passivos, e mais atenciosos para com quem levantou ou véu do problema, no contexto macroeconómico europeu e mundial. Pois estes, enquanto povo, não têm abdicado de se sacrificar, mas em prol daquilo que consideram ter direito: uma forma digna, sustentável e sólida de restituir a dívida causada por um ínfimo dos seus cidadãos, que corresponde aos governantes que os colocaram nesse sufoco e pouco ou nada são oficialmente considerados culpados.

 

Ao mesmo tempo, como operação de charme e arma principal da barricada governativa, vai-se montando uma imagem, cria-se uma convenção linguística e de estética visual, por fim de seduzir os que menos possam perceber, os mais conservadores, mesmo os desesperados e, por fim, os mais conformistas. A reparar, quase todos os parágrafos do discurso politico atirado dos aros do poder instituído, ornamentam-se de sentenças como “o interesse nacional”, “emagrecer o estado”, “o interesse comum”, “o bem das contas públicas”, e todo um outro conjunto sinónimo, paralelo e igual. O que é irrisório é que tais frases sejam pronunciadas mesmo quando: se fala em eliminar, ou mesmo encarecer em mais de 200%, os serviços públicos de Saúde; quando se anuncia um corte no orçamento a ser administrado às universidades públicas, praticamente impedidas de estabelecerem formas de rendimento próprias, e que registam além de abandonos significativos uma exportação enorme de cérebros formados por falta de oportunidades nacionais; palavras que são atiradas mesmo quando enfrente aos militares, que juram proteger a soberania da Nação e o seu todo, como que tentando ensinar a missa ao padre, ao mesmo tempo que se lhes corta no orçamento, nas condições e nas reformas e se quebra a soberania nacional a reboque das exigências de outros países. Palavras que são proferidas mesmo quando as pessoas que o fazem não conhecem mais do que duas autoestradas e aeroportos, e meia dúzia de cidades de um país com mais de dez milhões de habitantes, para o qual não quiserem olhar para fazer a sua carreira e, aceitam os seus atuais cargos como meio de consagração. Atirando as culpas de tudo o que encontram, não àqueles que são agora os seus pares, mas sim aos inocentes que mais não fizeram se não, viver. A viver como aprenderam e lhes foi permitido durante décadas, mesmo quando não sentiam que o seu país os representasse fidedignamente. Palavras que saem da boca, segura pelo queixo da cara da impunidade, do chico-espertismo português, do oportunismo, da capacidade de fazer vida por meio de influências, sinónimo de malandragem – como dizem os lusófonos do continente americano, sacanagem – ao mesmo tempo que sorriem, mesmo sob apupos, cartazes de ordem, e muitas outras formas de protesto.   

 

Lado a lado com as palavras, há vários signos que se podem identificar, conservadorismos que fazem parte do charme embutido nesta operação dita de salvação, como o são as bandeiras, que, passados poucos meses da eleição, surgiram na lapela da casaca de todos os que aparecem em representação do Governo – que teima em se confundir tantas vezes com o Estado. Um americanismo, pois é sabido que, por estas bandas, as eleições e o mediatismo americano é seguido – às vezes até com mais fervor que o nacional – como se um assunto interno se tratasse, mesmo por quem não percebe ainda bem quem são os Republicanos e os Democratas ou como são eleitos. Assim, se adotaram também os modelos de realização dos congressos ou dos comícios. A bandeira que é utilizada na lapela, e levada a todo o lado menos ao estrangeiro, onde talvez não convenha, à primeira vista, deixar transparecer a portugalidade óbvia, mesmo quando se é o único ministro monocórdico da sala. A bandeira que quer transmitir um sinal de segurança, a mensagem de que “nós somos patriotas”, mesmo que se estejam a vender as melhores empresas portuguesas a investidores estrangeiros. Mesmo que se coloque a mesma bandeira, símbolo do país, no dia de aniversário da implantação do modelo regente e vigente, de pernas para o ar pelo detentor do único cargo político eleito por voto direto – o Comandante Supremo das Forças Armadas. Mesmo que se queira apagar a única cauda digna de algum orgulho, como uma das melhores companhias mundiais de aviação civil e a única a ligar todos os países de língua portuguesa.

 

Toda uma companhia de homens que tentam assumir, e convencer os comuns cidadãos dessa assunção, o papel de Cavaleiros da Távola Redonda, os eleitos, sob alçada do Rei Artur, neste caso o Presidente. Seriam pelo menos 12. Mas não importa, há secretários que têm mais visibilidade que alguns dos 10, por isso, decerto que também se sentam nas mesmas conferências. Se não, com certeza, estará pelo menos um ou dois dos enviados divinos, FMI, CE e BCE. Então, estes, como eleitos, nomeados e iluminados, têm em mãos a missão de salvar todos, mesmo os que, cegos por falta de crença ou conhecimento, não querem a mesma salvação e temem as consequências. Estão aqui para punir todos os que, durante vinte anos, abusaram de uma consulta gratuita no médico de família; ou levaram medicamentos a mais para casa, quando o problema de ciática não era mais do que uma consequência normal do frio e da idade avançada; para se asseguraram de que só os realmente famintos recebem um subsídio, uma alimentação do banco alimentar e que os outros, esses malandrões, que vendam a roupa, a casa, o carro, e se mais não têm, que deixem esses luxos que são o aquecimento ou a água engarrafada e façam por se desenrascar. Vieram para cortar os abusivos preços baixos praticados nos transportes, que serviam os interesses daqueles que, apesar de trabalhar, disfrutavam da regalia de se deslocarem a baixo custo. Isso acaba agora. Quem quiser que pague o valor devido do transporte ou, já que trabalha, que compre um automóvel e utilize as vias de acesso rodoviário.

 

Não há argumento que possa contrapor tamanha missão! Mesmo que se manifestem, as pessoas, ou são vistas como arruaceiros, ou desprezadas porque não são dez milhões – quando se sabe, logicamente, que uma manifestação (além das dificuldades de contagem) nunca consegue trazer toda a gente para a rua, é um espetáculo mediático que, mesmo que represente todas as pessoas, não consegue convencer a totalidade a sair, e a totalidade não pode sair. Por isso não são tidos em conta. Por isso não entram na equação. São, no máximo, os mesmos que se aproveitavam do estado. São os mesmos que nos conduziram até aqui, mesmo que a maioria não tenha ainda idade para ter votado há mais de 5 anos, ou que tenham feito sempre os seus descontos até virem parar ao desemprego de 2008 para a frente, mesmo que sejam muitos empresários que estão a ir à falência e logo, a deixar de produzir riqueza. Mesmo que a mesma missão, diga-se suicida, passe por tentar estancar um modelo – do qual não se quer sair – que assenta na constante venda de dívida, a ser ressarcida aos investidores sempre com os juros que eles exigem. Mesmo que o erro seja, por um lado ceder-se a tal modelo, e por outro acreditar-se na possibilidade de igualar a balança e convencer meio mundo, mesmo tentando enfiar-lhe uma galáxia incandescente pelos olhos dentro, que é possível e concretizável não dever. Mas como, se todos devem e o modelo está feito para que a dívida se perpetue, mais ou menos acentuada, mas sempre no mesmo ciclo? Mesmo que a missão passe por negar a existência de um vocábulo, um significado e um sentido do dicionário e da semântica social: Dialética. O objetivo é insistir, voltar, continuar e persistir nos mesmo erros, nos mesmos modelos, porque se crê que não é possível agir de outra forma, nem evoluir ou criar outro sistema. Eles são os detentores da lanterna, em substituição da espada, que ilumina a solução sobre um espelho que reflete sobre si mesmos.

 

Contudo, talvez seja mesmo esse o problema. Por um lado, segundo Kant, a iluminação não é um estado sólido e imutável, mas antes pressupõe uma atitude constante da capacidade individual de decidir, mediante o conhecimento dos dados e das consequências, o caminho próprio sem a influência ou persuasão de outrem. Sem que nos deixemos guiar. Por outro lado, a iluminação a que os cavaleiros estão sujeitos é tamanha, e sai tão refletida que se deve aconselhar os mesmos a resistir “à ilusão de supor que tudo pode ser inundado de luz”, pois “deixaríamos de ver” (Eduardo Lourenço, Heterodoxia I). O que deixaram de ver, há muito tempo, é que o inimigo público número um, que tanto tentam combater e erradicar, são eles mesmos! 

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