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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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5 lições sobre a celebração do 25 de Abril

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Algumas pessoas têm-se manifestado contra a cerimónia de comemoração do 25 de Abril, na Assembleia da República, alegando vários tipos de argumentos, como "se a Páscoa não se celebrou, o 25 de Abril também não", ou que "os políticos têm que dar o exemplo", entre outros. Contudo, a maioria desses argumentos não passam de falácias lógicas ou de estratégias de desinformação, vejamos:

 

1 - Comparar o 25 de Abril com a Páscoa, é o mesmo que discutir se Cristo era comunista. Isso é uma falácia lógica informal, chamada "falsa equivalência", ou como diz o ditado, "não se misturam alhos com bugalhos". O 25 Abril é uma data política, que marca o fim de uma ditadura fascista por intermédio de uma revolução militar e popular, possibilitando o nascimento do regime democrático constitucional, ao fim de 48 anos de opressão e perseguição política. Já a Páscoa é uma comemoração religiosa, comparável ao Ramadão e à Pessach (Festa da Libertação dos hebreus do Egito) e nenhum deles foi alvo de descriminação perante a lei, no que diz respeito às medidas de restrição de circulação, distanciamento, isolamento e de segurança sanitária. Assim como a sessão do 25 de Abril também não terá nenhuma discriminação, positiva ou negativa, face a todas as outras sessões que têm decorrido diáriamente no Parlamento.

 

2 - Neste momento é supérfluo falar do sacrifício de estar longe das famílias. Eu, por exemplo, vivo a 9 mil quilómetros da minha família, que não vejo há mais de um ano e que muito provavelmente não poderei rever até ao final deste ano, ou meados do próximo, por causa da Pandemia. Há pessoas isoladas em lares de idosos, com medo, que não conseguem ver nem receber os familiares. Há pessoas a enfrentar problemas graves de saúde, sozinhas em casa, com muito medo de morrer por causa do vírus. Há milhões de refugiados abandonados nos campos de acolhimento, longe das suas famílias, sem acesso a médicos, a hospitais ou a água potável sequer. Há pessoas cuja única coisa que pedem, antes de serem entubadas, é que os enfermeiros os deixem gravar uma última mensagem para a família, caso venham a falecer, porque muito poucos pacientes sobrevivem depois de entubados. Então, ter a possibilidade de estar longe da uma parte da família, durante qualquer celebração, para evitar contaminar alguém ou ser contaminado, é um sacrifício que se faz para salvar aqueles que temos a sorte de saber que estão bem. É um dever e uma responsabilidade, para preservar a saúde de quem amamos.

 

3 - Por isso é que também não faz sentido nenhum o argumento de que "os políticos devem dar o exemplo e não celebrar essa data, ficando em casa". Este argumento mistura duas falácias. Primeiro, a do apelo às consequências (prevendo que as pessoas vão sair à rua por causa disso, espalhando o vírus) e em segundo, a do apelo à emoção, nomeadamente ao medo (só eles se podem juntar enquanto nós não, por isso, se o vírus se espalhar por causa deles o nosso sacrifício é em vão e milhares de pessoas morrerão). Além de também comparar coisas que não são equivalentes. A democracia não está suspensa, ao contrário do que muita gente pensa, mas não deixa de ser sui generis ver pessoas a defender que os políticos não devem trabalhar, ao mesmo tempo que os acusam de não defenderem os interesses do povo. Ora, é precisamente dando o exemplo que os parlamentares têm mantido as sessões diárias, só com um terço dos deputados, aprovando e discutindo medidas que dizem respeito aos interesses coletivos da população. Assim como outras profissões que não podem parar, como na saúde, alimentação, distribuição e transportes, limpeza e manutenção, telecomunicações, fábricas de bens essenciais e derivados, recolha de lixo, correios, etc., assim como a sociedade depende destes e de outros profissionais para subsistir, ela também precisa que os políticos cumpram os seus deveres e assinalem as suas liturgias, assumam responsabilidades e líderem a situação. A única forma dos políticos darem o exemplo é trabalhando! Seja durante uma guerra ou durante uma pandemia. Se eles desistirem de fazer isso, aí sim é que se instala o caos. Vejam o exemplo do governo brasileiro. 

 

4 - Fazer política não é um privilégio, é um dever. Contudo, há muita gente interessada em deturpar esse pressuposto. É a estratégia da "despolitização", que usa o argumento tecnocrata da "pós-política" (de que devemos abandonar as velhas ideologias e buscar verdades universais, porque todos os políticos são iguais) e da falácia lógica da narrativa bélica e bíblica da "ultrapolítica" (do "nós" contra "eles"), com o objetivo de nos afastar das estruturas de organização política e de nos convencer a defender interesses normalmente contrários ao nosso bem-estar social. Desmantelando as instituições democráticas, privatizando serviços públicos, precatizando o trabalho e o poder das estruturas sindicais, desmobilizando reivindicações e desvalorizando símbolos e datas que assinalam conquistas populares. Assim, há décadas que nos tentam convencer de que os políticos "são todos iguais" e "um bando de chupistas" que só "falam, falam, falam, falam e eu não os vejo a fazer nada", desta forma, celebrar o 25 de Abril "é só uma desculpa para comerem e beberem à nossa custa". Não é! Ao contrário do que acontece normalmente, o 25 de Abril é o único dia em que todos os partidos têm direito a usar o tempo que quiserem para discursar sobre o que pensam da sociedade, da democracia, ou sobre quais deviam ser as prioridades para o país e para a população, no presente e no futuro. Todos, por igual. Com a presença do Presidente da República. Então, para nós, é uma oportunidade de ouvir cada um e julgar quais nos representam, ou não, diante das privações e dos obstáculos e oportunidades que se avizinham. Quem não quer que isso aconteça são os mesmos que prometeram abater ou privatizar o SNS, a segurança social e até as escolas, ou acabar com os serviços públicos, mas que agora fingem preocupação quando tudo ameaçar colapsar. São apenas 11 deputados, de um universo de 230, os únicos que são contra o dia da Liberdade! 

 

5 - Por fim, é legítimo que as pessoas discordem das decisões políticas e dos atos e cerimónias institucuinais. Lá está, "foi para isso que se fez o 25 de Abril". No entanto, fugir ao ao debate e ao confronto de ideias, sobretudo agora, é mais do que uma cobardia. É uma irresponsabilidade e uma falta de carácter, que visa apenas tirar dividendos da crença popular de que celebrar esta data na Assembleia "não serve para nada", o chamado "argumentum ad populum" (outra falácia), para se eximir de responsabilidades, não comparecendo. Uma vergonha ultrajante para com todos os que deram a vida para que Portugal seja um país livre, que tantos se orgulham de ajudar a construir e a preservar! São os vampiros à espreita, para nos tirarem o sangue que sobrar quanto isto tudo passar. Não se esqueçam deles, pois são os mesmos que não terão pudor em reafirmar as suas crenças e tendências anti-democráticas quando a maré baixar, exigindo sacrifícios e restrições. A começar pelas nossas liberdades, sem direito a contestação. Esta data é importante precisamente para nos lembrar que não podemos baixar a guarda, e que devemos continuar a lutar contra estes e outros oportunistas, com a mesma alegria e unidade com que derrubámos os anteriores!

 

25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!

Viva a liberdade! Viva à revolução!

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