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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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A banalização do mal no Brasil

A banalização do mal no Brasil

Morrer no Brasil é muito fácil. Morre-se de qualquer coisa. Morre-se por ser negro, mulher, gay, índio, ativista, político, pobre, agricultor, estudante, artista, polícia, viciado, jornalista, transeunte, enfim, o difícil é manter-se vivo. O Brasil tem a polícia que mais mata e a que mais morre. Há mais mortes violentas no Brasil do que na Síria. Nada disto é novo, mas tem sido impulsionado pelo atual governo, através da perseguição, ataque e censura a grupos sociais e opositores políticos.

Contudo, não obstante os sucessivos ataques – tanto do presidente, como dos seus filhos, do seu mentor Olavo de Carvalho e dos seus seguidores e correligionários – sempre baseados em preconceitos e falácias argumentativas, com o objetivo de mitigar e eliminar o debate de ideias, ou direitos, liberdades e garantias que possibilitam identificar e apontar as falhas, ilegalidades ou condutas desviantes no governo, também havia quem apontasse aos críticos a falácia "Reductio ad Hitlerum". Ou seja, o erro de reduzir exageradamente Bolsonaro a Hitler, ao classificar o seu governo e várias das suas políticas e atuações de nazis ou fascistas ou nazi-fascistas.

Ora, recentemente, o ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, resolveu anunciar um prémio de Ópera, fazendo um vídeo onde plagia deliberadamente, como contaram membros da secretaria, um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler, ao som de Richard Wagner. "A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional (…) ou então não será nada”. Com tantos atos ou tentativas de censura a filmes, peças de teatro e livros durante o último ano, até ao momento, a cultura brasileira tem sido, efetivamente, reduzida a pó.

Apesar da exoneração, antes disso, o ex-secretário passou um dia inteiro a tentar justificar a “perfeição” da sua afirmação ou a “ignorância” da origem das suas palavras, capitulando na afirmação das mesmas. O mesmo governante que outrora disse que desprezava Fernanda Montenegro, em defesa do cristianismo, usou das palavras e estética nazista para definir as prioridades culturais do atual governo. Caiu, mas o resto ficou.

O resto é o discurso, a estética e a ação de um governo onde atitudes como esta servem para medir o grau de tolerância da sociedade ao autoritarismo, assim como os limites da democracia. Desta vez, como a resposta e o repúdio foram rápidos (e unânimes), a estratégia vai ter que adaptar os seus ataques e os seus alvos futuros: Roberto Alvim não foi demitido por ser nazista, mas sim por não ser suficientemente discreto na afirmação desse nazismo.

Até porque, se antes de entrar para o governo Bolsonaro dedicou o seu voto no Impeachment de Dilma a Brilhante Ustra, já como presidente recebeu a viúva do mesmo no palácio; o seu filho e o ministro da Economia ameaçaram instaurar um novo AI-5; mandou reformar os livros didáticos nas escolas; não condenou o ataque terrorista ao Porta dos Fundos; culpou ONG’s dos incêndios florestais; e entre outros, chegou a elogiar o ditador Pinochet: fascista nos valores e liberal na economia.

O que todos devem ter em mente é que as ditaduras não nascem espontaneamente de um dia para o outro, elas vão-se instalando e impondo-se paulatinamente, desmantelando as estruturas democráticas de dentro para fora. Num processo tão acelerado como tem sido o brasileiro – entre medidas aprovadas, demissões ideológicas, aparelhamento do estado, os ataques à imprensa e a divulgação constante de notícias falsas – por vezes alguém toca num limite (ainda) intransponível, como aconteceu desta vez, suscitando inclusive o pronunciamento da embaixada alemã e da comunidade judaica.

Porém, isso não significa que haja, no futuro, um desligamento entre este discurso e a ação do governo ou uma inflexão nas medidas que têm circunscrito o espaço democrático no Brasil. Muitos outros governantes e parlamentares (como Abraham Weintraub, Ernesto Araújo, Damares Alves, Ricardo Salles, Paulo Guedes, Augusto Heleno, Moro, Bolsonaro e a sua família) continuam a ter carta branca e incentivos a impulsionar o discurso contra tudo e todos aqueles que se arriscam para os contradizer. Entretanto, à medida que o discurso endurece, os direitos diminuem e a violência aumenta, trazendo com ela as mortes daqueles para quem os limites já foram ultrapassados.

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