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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

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A dor

Edvard Munch - O Grito

Hoje acordei com uma enorme dor de costas. A dor é das coisas mais difíceis de encarar e suportar para os humanos. Tanto a dor física como a psicológica. Sobretudo a segunda. Claro que depois existem matizes para cada tipo de dores que nos afligem. Às vezes, imaginamos dor em partes do corpo que não existem. Outras vezes, magoamos partes do corpo exististentes só de pensar em certas coisas. Mas os médicos explicam isso melhor do que eu.

Perder pessoas é uma daquelas dores que nunca sabemos se é real ou imaginária. Seja voluntária ou involuntariamente, de forma permanente ou transitória, é uma dor que deixa sempre marcas que podem reabrir. Todos nós nos habituámos a perder pessoas ao longo da vida, mas nunca aprendemos a lidar com o vazio que cada um deixa nos cómodos da nossa existência.

Há também a dor de deixar alguém para trás. Os amigos que perdemos de vista, os colegas que mudam de cidade ou que ficam na cidade de onde nós saímos. Os que não caminham ao nosso lado acabam perdidos ao longo do caminho, nas bermas das histórias de afetos e desafetos que nos compõem. Nós também ficámos algures numa dessas encruzilhadas alheias. Por vezes, o reencontro é ainda mais doloroso. As relações humanas são assim, frágeis, sensíveis, insensatas e às vezes dolorosas, mas necessárias para lavar a alma.

Lembrei-me disto tudo enquanto descacascava batatas e lavava a loiça. A dor de costas passou. Pelo menos eu esqueci-me dela. Detesto a ideia de viver num mundo onde a perda de alguém se torna numa dor crónica. Uma dor que se esquece quando se fala de números imaginários e de coisas que têm preço mas que não valem nada. Uma dor à qual nos a costumamos, como se não houvesse opção de escolher outro caminho. Por mais que nos doa e venha a doer as costas, de carregar o fardo de reerguer o mundo, nada é mais difícil de carregar do que a dor de perder o afeto e a compaixão uns pelos outros. Há tantos motivos para que seja diferente.

Imagem:  Edvard Munch, O Grito (1893),  Óleo sobre tela, Têmpera e Pastel sobre cartão, Galeria Nacional, Oslo.

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