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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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A subversão como poder de autonomia

Ipanema, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil - 2019

A subversão sempre foi a maior arma dos oprimidos. A 8 de Dezembro celebra-se o dia de N. Sra. Da Conceição, Imaculada sem Pecado, Mãe de Jesus Cristo, Padroeira de Portugal, cujo principal santuário está situado em Vila Viçosa, casa mãe dos Bragança, última dinastia das monarquias portuguesa e brasileira, que a coroaram após reconquistar a independência de Espanha, em 1640. Atrai tantos devotos e histórias, que no Brasil, Conceição é ainda hoje um dos nomes mais utilizados, a par de Maria, que também em Portugal se tornou quase hegemónico entre as mulheres. A minha mãe, que cresceu junto ao santuário onde depois eu fui acólito durante uma década, chama-se, claro, Maria de Jesus.

 

Mas nas colónias portuguesas, sobretudo no Brasil, a fé não era uma questão de liberdade ou devoção. Os colonizadores, que descendiam dos primeiros templários, tinham como missão a evangelização e os escravos tinham como obrigado despir-se da sua identidade, das suas crenças e obedecer às ordens do império, dos donos da terra, dos senhores das senzalas, dos capatazes ou dos capitães de mato, na ausência de qualquer um dos outros. A maioria não sabia a quem obedecia ou por que tinha de obedecer, só sabia das consequências de não o fazer.

 

Daí nasceu o sincretismo, a fusão de diferentes doutrinas e práticas religiosas, entre as obrigatórias e as proibidas, como estratégia de liberdade, subversão e sobrevivência. Sinal de inteligência. Assim nasceu a Mãe Oxum, mãe de Logum Edé, seu único filho, senhora do amor e da fertilidade, mulher forte, guerreira e independente, separada do pai do seu filho, Oxóssi. Orixá Mãe do Amor, Oxum é a mulher negra que peita os aborós, impondo as suas vontades sublinhando o valor das mulheres em todas as coisas da terra e em todos os princípios da humanidade.

 

Oxum é celebrada no mesmo dia que N. Sra da Conceição, a 8 de Dezembro, unindo a força de ambas e diversificando a identidade e representação de cada uma, unindo os dogmas e dividindo as oferendas, em prol da sua protecção, do doce do seu amor e da força das suas convicções.

 

O povo negro foi destituído de toda a sua identidade, durante séculos, mas foi capaz de se erguer e reinventar, sem sucumbir às perversidades quotidianas. A matriz dessa inteligência, esperança e perspicácia, de quem vivia no inferno, reflete-se hoje no enorme legado cultural que chega até nós.

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