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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Brasil: estamos todos errados!

© David Parkins 

Afinal, o problema é "das elites", isto é, "dos intelectuais" que não sabem nada, ou melhor, dos "governos corruptos" e da "insegurança", e neste caso é obviamente "culpa da roubalheira do PT", como foi o caso dos Democratas nos EUA, além de que costuma ser sempre culpa "das pessoas mais pobres, coitados, que estão desiludidos". É mais fácil prestar um atestado de menoridade, como é o caso do "garoto" de 30 e tal anos que "não sabe o que diz" quando ameaça o STF, do que procurar sempre ver mais além do imediato ou daquilo que outros já repetiram até à exaustão.

 

A culpa é sempre do outro. Nunca é da classe média e alta, branca, formada mas ignorante, da pequena burguesia com acesso à segurança, à saúde e à educação, isolada nas suas convicções. A culpa é sempre de quem procura fundamentar uma opinião, um facto histórico, uma análise social e uma reflexão com mais de duas frases.

 

A ideia de povo é tão grande e subjetiva como a noção de sociedade. Mas é difícil, sobretudo àqueles que se gostam de posicionar de fora, de perceber que há mais do que uma razão, às vezes até contraditórias mas convergentes, para dar uma resposta válida à mesma questão. Até em matemática é assim, da mesma forma que o é no estudo da razão.

 

Aceites e carimbadas as justificações simplistas para o resultado eleitoral no Brasil, só posso concluir que estamos todos errados. Estou eu, estão os sociólogos, está o The Guadian, o Financial Times, o New York Times, o El País, o The Independent, o Le Monde, a BBC, os professores universitários (portugueses e brasileiros) de História, Ciências Sociais, Direito, Ciências Políticas, Estudos Clássicos, de Estudos Contemporâneos, de Filosofia, de Literatura, de Cinema ou de Economia. Estão também errados os professores de Harvard que se manifestaram recentemente. Estão errados o Roger Waters, o Caetano Veloso, o Chico Buarque e todos os que agora circulam por aí numa lista de boicote. Até o relator do próprio processo do Mensalão está errado.

 

Enfim, o mundo em geral está errado. É tudo culpa da "ditadura das minorias", dos "bandidos" e dos "defensores dos direitos humanos", ou das "feministas vadias". Já para não falar do "coitadismo" e do "mi mi mi".

 

A verdade é que não só hoje, mas há uns tempos a esta parte, as pessoas em quem tenho encontrado mais resistência e menos abertura ao diálogo e à mudança ou respeito de opiniões, não são ignorantes nem analfabetos; não são velhos nem tão pouco os mais novos; não são os pobres ou os desempregados e em situações de dificuldade financeira. Nem tão pouco os que mais insegurança têm. Por incrível que isto vos pareça, costumam ser pessoas aparentemente formadas, com empregos assegurados ou uma situação financeira estável, com idade média entre os 30 e os 60 anos, muitas das vezes bastante bem inseridas na sociedade e sem necessidade de grande assistência social.

 

Sim, é preciso combater a corrupção. Sim, é preciso redistribuir riqueza. Sim, é preciso verdade e transparência na democracia. Sim, é preciso também melhorar a educação e o ensino superior. Sim, ninguém é feliz vivendo na miséria ou na insegurança. Óbvio, são verdades de La Palice. Mas também é preciso estarmos atentos à classe média e aos efeitos de Dunning-Kruger a que estamos a assistir (quando alguém pensa dominar um assunto só porque ouviu falar dele) e às retóricas preconceituosas, falaciosas e muitas vezes totalmente mentirosas que se têm instalado neste perfil de sociedade que acabei de descrever. O mesmo, que em todos os capítulos da história, levou ditadores ao colo até ao palanque.

 

Uma coisa todos eles nos deixaram: países e sociedades bastante piores do que aquelas que encontraram, esventradas de dor e pobreza, mas com óptimos dados estatísticos, com zero corrupção, zero criminalidade, zero manifestações, zero oposição. Também é por isso que merecem tolerância e respeito zero.

 

ps: este texto foi escrito e publicado no passado dia 29 de outubro, antes de se saberem muitas das nomeações para os cargos ministeriais do novo governo brasileiro, que no fundo, só corroboram algumas das piores espectativas acerca de um futuro tenebroso que se avizinha para o maior país de língua portuguesa do mundo e uma das maiores nações do planeta. Resta-nos resistir e procurar ter a consciência clara de que perante um possível totalitarismo não existe "isenção", ou se é conivente, ou não.

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