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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Combater a insatisfação dos polícias não chega

Combater a insatisfação dos polícias não chega

A extrema-direita tomou conta de uma parte substancial das forças de segurança portuguesas. Nomeadamente, através do chamado “Movimento Zero”, de um ou mais sindicatos, onde se destaca o SUP – Sindicato Unificado da PSP, liderado por Ernesto Peixoto Rodrigues, aposentado compulsivamente e candidato do “Chega”, o partido de André Ventura apinhado de dirigentes nazis. Chegados aqui, tentar eliminar ou responder à bolha de insatisfação, apenas, não chega. 

 

A partir do momento em que alguém é coaptado pela retórica destrutiva e extremista de movimentos como este, que surgem e se alimentam em volta da precariedade e crescem em cima de preconceitos e ataques de ódio e discriminação, é inútil. É o mesmo que tentar mostrar os benefícios da vacina a um antivacinas, ou tentar converter alguém profundamente religioso num ateu convicto, com base em demonstrações científicas. Quem escolheu ou foi conduzido ao caminho do antagonismo racial, à retórica do nacionalismo, à ideologia visceral do fascismo racista e xenófobo, através de uma narrativa de exclusão e oposição, está num beco sem saída.

 

É óbvio que é de suma importância criar mecanismos estruturais que possam, de certa forma, estancar uma ferida aberta no seio das forças de segurança, em especial na PSP, ligadas à falta de condições materiais e laborais: desde a melhoria das esquadras à aquisição de material adequado, passando pela remuneração, horas de trabalho, reforço de efetivos e benefícios sociais. Porém, nada disso surtirá efeito se não for acompanhado de uma estratégia política e administrativa que tenha por base uma formação policial vocacionada para a proximidade, a mediação de conflitos, o Direito Penal mínimo, e uma filosofia antipunitivista que contrarie o clamor público (de esquerda e de direita), o chamado populismo penal (outrora criticado na tese de André Ventura).

 

Ao mesmo tempo e também por isso, para contradizer essa vontade reacionária, impulsionada pela retórica da impunidade – tanto associada à corrupção, por um lado, como aos ataques das estruturas sociais de opressão contra as minorias, as periferias, as nacionalidades, ou por base em distinções étnicas e raciais, do outro lado – é necessário que se comece a ponderar um sistema de reparação solidária, ponderado e mais complexo, que tenha por base o tratamento e acompanhamento (psicológico e material) da vítima, assim como a transformação dos opressores em colaboradores dessa mudança, social, estrutural e penal. É urgente educar as forças de segurança, começando por estratégias de empatia e capacidade de diálogo, antes de reforçar o seu armamento ou de alimentar a lógica do embate e do confronto, que dão carta branca aos abusos e às opressões.

 

Outro problema urgente que deve ser combatido neste âmbito é a hierarquização estanque e opressiva e tirânica atualmente existente dentro das forças de segurança, que faz com que os militares se relacionem através de uma espiral de abusos, favorecendo o corporativismo e o avanço e coesão de ideais excludentes como os que estão a dominar os agentes. A sua própria opressão serve como justificação da opressão praticada sobre negros, ciganos, mulheres e gays. 

 

Contudo, também nos falta muito trabalho social e sociológico nesta matéria. Sobretudo no trabalho de militância, de debate e de organização social que nos permita, enquanto sociedade, rejeitar radicalmente atitudes como as que têm vindo a ser notícia nos últimos dias, seja a morte de Luís Giovani dos Santos Rodrigues (e o tratamento mediático que teve), em Braga, seja a agressão de sofrida por Cláudia Simões, na Amadora, ou as agressões perpetradas no Bairro da Jamaica, já para não falar no que sucedeu em Borba e as acusações (sem contraditório) à comunidade cigana. 

 

Costumamos procurar a origem dos problemas, para encontrar respostas de base capazes de resolver os conflitos sociais. Mas não podemos esquecer, sobretudo nestes casos, que a sociedade é o primeiro nível combate onde se pode atacar a base e a origem da ideologia do mal, do ódio e a da opressão discriminatória. Somos nós, enquanto coletivo, que nos devemos impor contra isto. No dia-a-dia, em casa, na rua e em qualquer espaço público, sendo críticos e ativos na mudança.

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