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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

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Dar o peito às balas da intolerância

Jonathan Bachman | Reuters

A inconstância dos tempos leva-nos a temer o pior. Mas não podemos deixar que o medo se apodere de nós. Fazer amor não chega, é verdade, praticá-lo diariamente é pouco e distribuir afetos é insuficiente. Infelizmente há titãs que não se derrotam apenas com uma oposição caridosa. Hoje, como sempre, tudo depende de nós e da nossa apatia ou sensibilidade perante os problemas e ameaças diárias.  Devemos começar a combater o imperialismo da desordem e do preconceito no pial da nossa casa, dentro da nossa própria morada, porque a transformação depende de começarmos a ver, mais do que olhar.

 

Abrir a mão aos outros, e não dos outros, é meio caminho para destruir as barreiras que nos isolam, que nos deixam sozinhos, num deserto de ódios, preconceitos, mentiras e injustiças. A nossa luta não pode ser individual, deve ser, antes demais, um gesto de humanismo e solidariedade coletiva, perante o desamparo dos outros, que saltam no trapézio sem rede da desigualdade.

 

Precisamos, antes que nunca, mais cedo que tarde demais, de lutar pela afirmação dos Direitos Humanos em todos os cantos do mundo. Algo que implica lutar pelo direito à dignidade, ao reconhecimento e aceitação, inclusão e partilha de bens, com todos os refugiados e sem-abrigo do mundo. Há mais de 50 milhões, a maioria à porta da Europa. Muitos deles a morrer de frio, nas ruas ou em tendas cobertas de neve. E ainda assim, esses são apenas uma franja dos poucos que conseguiram escapar por entre as frestas do tempo, de uma guerra de holocaustos que se dissemina não só na zona do Magrebe, mas por todo o continente africano, em especial na zona do Sahel, onde terroristas, ocidentais, exércitos e drones, lutam por urânio, escravos e soberanias. A única soberania legítima em todo o mundo é a do Humanismo, entre pessoas e povos. Tudo o resto são meros pretextos para batalhas vãs de desumanização e horrores.

 Migrants saved by the navy in Mediterranean | Marina Militare/Anadolu Agency/Getty Images

FOTO: Migrants saved by the navy in Mediterranean (25 May, 2016) | Marina Militare/Anadolu Agency/Getty Images

 

Temos que substituir o fogo e a dor por uma paixão desmesurada pelo reconhecimento à dignidade de todos. Dos pobres, das mulheres, dos refugiados e de todo o pluralismo cultural, sexual, religioso e social. A luta contra o mal deve pautar-se pela sustentabilidade das nossas relações, frente a um precipício de ignorância sobre o qual devemos erguer uma ponte de razão.

 

Devemos semear a paz em qualquer lugar, mas desde logo nos nossos lugares-comuns do quotidiano, onde podemos renovar e redescobrir a nossa forma de estar. Em vez de viráramos os holofotes da nossa atenção para a barbárie mediática, puxemos furiosamente a corda das velas deste barco perdido que é a Humanidade, a favor dos ventos da verdade em que possamos confiar, diariamente, na direção da luz de um porto de esperança, ténue, mas real, onde possamos atracar a nossa voz, por entre o breu dos dias. A água destes mares incertos, por navegar, não pode ser desperdiçada num jogo de rebentações espumosas onde ninguém ganha.

 

Aqui, hoje, está frio demais para apostar nos desígnios dos tiranos que podem fazer tão pouco perante nós. Nós é que nos devemos opor ao escrutínio bélico, neste planeta onde deixámos que a diversidade se transformasse em medo e o medo em solidão. Devemos ser nós a afirmar, por cima de todo o tempo que já passou, que queremos ficar à frente de todas as balas de intolerância, de todos os bombardeamentos da ganância do fim dos tempos. Depois do fim, tudo o que é nosso é tudo aquilo que não podemos largar: a vontade de amar os outros e dividir com eles aquilo a empatia capaz de nos humanizar, de novo, que rasga o escuro das mágoas que o medo quer deferir. Nós, homens, não podemos perder perante os monstros.

 

Foto de Capa: Demonstration in Baton Rouge, 9 de julho, © Jonathan Bachman/Reuters

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