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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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Love, um filme sobre a estética de amar

“Love” (2015, real. Gaspar Noé)

“Love” (2015, real. Gaspar Noé), que só chegou às salas de cinema portuguesas em meados do ano passado, é um quadro vivo acerca das nossas dúvidas e ansiedades amorosas misturadas com o ímpeto sexual das nossas relações, onde os tabus e a frustração nos assaltam perante o desconhecimento dos sentidos e dos sentimentos. Podendo facilmente ser confundido com um filme pornograficos e classificado para maiores de 18 anos – visto ter cenas de sexo explícito desde a cena de abertura – é um filme que se preocupa mais com a discussão e a dúvida, na incerteza sobre os significados e as formas que o amor pode assumir, do que com as respostas e as certezas.

 

Através do ponto de vista subjetivo do jovem Murphy (Karl Glusman), vamos assistindo ao drama erotizado de um casal que procura definir-se no seio dos pontos comuns da sua relação, a par das divergências causadas pelos seus desejos íntimos. Nem sempre o prazer é tido em conta na forma como descrevemos as nossas relações, mas é sem dúvida um dos catalisadores de qualquer relacionamento amoroso. À medida que procuramos catalogar a nossa vida à imagem dos olhos alheios, esquecemo-nos múltiplas vezes de referenciar e explorar aquilo que melhor nos define ou preenche. A relação de Murphy com Electra (Aomi Muyock) não é mais do que uma balança de equilíbrios idílicos, assente no estímulo e na exploração do prazer e de um imaginário comum. Tudo lhes é permitido enquanto casal ou indivíduos. Tudo é exagero e deleite. Tudo é uma vertigem constante. Uma procura insaciável.

“Love” (2015, real. Gaspar Noé)

Este é um filme bastante gráfico, sendo que não poupa nos recursos visuais como artifício para nos contar uma história, sobretudo para despoletar sentimentos e reações físicas no espectador. Se por um lado as cores vão acompanhando as emoções e estados de alma das personagens, por outro, as cenas eróticas transportam-nos para uma atmosfera de puro êxtase, recentrando-nos no sentimento da união e da unicidade entre as personagens. Claro que esse mesmo estado de harmonia se vai desequilibrando, do início ao final do filme, enquanto vamos acompanhando o desfecho drástico de uma relação cuja resolução atormenta a personagem de Murphy, incapaz de controlar o seu desejo. Há um limite para a experiência? Há alguma “Caixa de Pandora” que devamos evitar abrir?

 

Desde os nomes, que definem o próprio destino de cada uma das personagens, às referências histórico-filosóficas e artísticas presentes em algumas cenas e diálogos, todo o filme se vai desmoronando num puzzle de significados e informações, numa espiral estonteante de sensibilidades, que nos vão envolvendo no drama, alimentado ao ritmo da retrospetiva titubeante de uma relação, entre o prazer e a culpa, a frustração, a lealdade ou a traição. Um berço de dicotomias entre a escalada recíproca de experiências e uma luta constante entre a aprovação e reprovação, social, intima e individual ou mútua de condutas. Afinal, o amor resume-se ao prazer físico, ou será que o maior inimigo dos homens é pensarem apenas na sua satisfação?

“Love” (2015, real. Gaspar Noé)

Ao mesmo tempo, o cuidado apresentado nas músicas, os efeitos visuais e a relação entre as transições plásticas, desde uma briga a uma ejaculação, este filme é uma experiência arrojada e provocante, difícil e ambiciosa, mas muito bem conseguida. Alimenta-nos de dúvidas, através das nossas certezas, confunde os nossos estereótipos sociais e amorosos através do risco, e conquista a nossa empatia e envolvimento projetando-nos no limbo entre o desconforto e o prazer, manipulando as nossas sensações físicas. Não nos dá uma resposta concreta, sobre o que será o amor, mas deixa-nos imensas dúvidas, ou pelo menos a certeza de que pode ser aquilo e muito mais. Como o próprio nome indica, é uma verdadeira ode ao Amor livre.

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