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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Moderadamente Vivos

© João M. Pereirinha 2013


 

 

Será que já conseguimos interiorizar a culpa que persegue o castigo das políticas europeias e nacionais a que estamos sujeitos? O discurso bramido aos ventos e sete mares, de fora para dentro, de dentro para fora, de dentro para dentro, tem sido claro e clarificador: vivemos acima das nossas possibilidades (durante quatro décadas). É o que diz o discurso, não eu, que sustenta a sentença, decreta os culpados e aplica os castigos.

 

É assim que se procede em sociedades autoritárias, pró-regime e imperiais: decide-se, decreta-se, corta-se e investe-se em nome de todos, sem consultar ninguém, e castigando alguns, normalmente a maioria, por prevaricar da norma vigente. Se alguma das populações que vive sob regimes autoritários por ventura não viver bem, a explicação é simples: não se vive bem porque não há alternativa a se viver de outra forma, as autoridades estão a fazer os possíveis e de forma competente. Se não se atingem patamares elevados dos índices de condição de vida, é porque ou não são merecidos ou são culpa do mau desempenho coletivo que os técnicos tentam inverter.

 

Assim, e olhando para aquilo a que temos assistido, a solução é uma e uma só: aumentar a pobreza na população ativa, implicando uma estruturação do consumo interno em função de uma descida em relação ao nível de importações, tentando por outro lado aumentar as exportações. Foi isso também que foi dito à Ucrânia, que supostamente ambicionava melhores condições de vida, e que por isso derrubou um regime corrupto, mas que agora, intervencionada pelas entidades financeiras internacionais se vê forçada ainda a um maior empobrecimento progressivo e excluída das suas fontes de energia e alianças privilegiadas a Este, isto é, com a Rússia.

 

Enquanto por cá, em Portugal, ao fim de 40 anos de Democracia temos um país pouco desenvolvido e uma sociedade cada vez com piores condições de vida. Sem nunca ter verdadeiramente acesso áquilo que se chama de “Serviço Social” na Europa central, e com um debate político amorfo, inexpressivo que derivou de “como aplicar medidas de desenvolvimento” para um paradigma imposto de “como cortar?”. E nos últimos anos as únicas desigualdades que diminuíram não foram conseguidas graças a uma ascensão social das classes mais fragilizadas, mas antes por um esmagamento da classe média, de onde foram desviados quase €30mil Milhões – e assim desviados também da economia – diretamente para pagar juros de Dívida Pública. Estamos a matar inclusive a pequena Burguesia. Segundo Marx, depois da revolução Burguesa, os operários iriam sentir necessidade de se revoltar também contra os Burgueses, que enriqueceriam facilmente através da produção de riqueza conseguida pelo seu trabalho. A solução económica foi matar primeiro os burgueses, e torna-los operários, ou indigentes. Assim, mesmo que vivos, a moderação impera, e qualquer medida com a bandeira do progresso e a recuperação a longo prazo são acatadas.

 

Todos ficam a pensar no futuro, o Futuro como algo que nunca chegará, e que torna a miséria presente obsoleta, e nos obriga a esquecer o passado. No entanto, o Futuro é também aquela miragem onde nenhum de nós estará. Mas ajuda a moderar qualquer opção alternativa. Ajuda a reajustar o eixo do motivo, e convencer-nos da culpa própria em causa alheia.

 

A riqueza presente, em função do progresso futuro, é a cegueira da (des) governação que desfila nua, invisível aos olhos de quem não compreende ou não conhece a questão, ou melhor, de quem não reconhece os seus excessos e despesismos. O que acontecerá a cada um quando todos recuperarmos a visão? Será que, tal como o Rei Édipo de Sófocles arranca os próprios olhos após perceber que involuntariamente tinha morto o seu pai, também os nossos governantes irão arrancar os olhos quando perceberem que nos mataram?

 

Ou talvez sejam exilados, à imagem do que promovem juntos da população, como acontece com Agave depois de perceber que decapitou o próprio filho, Penteu, na tragédia grega “As Bacantes” de Eurípedes. O nosso executivo encaixa perfeitamente no mito de Agave que se deixa hipnotizar pelo estrangeiro e vai com ele para o cortejo das bacantes, assim como país, moderadamente, se deixa convencer e acaba por aderir também. Um decapita o outro, e pensa, no meio do transe, estar a agradar Cadmo, o pai de Agave. Quando percebe o erro é exilada, e a família condenada sendo o seu pai também e a mulher transformados em serpentes.

 

Somos nós, desfalcados de tantos cortes. Cortes sem medida, e medidas sem molde. Será que o alfaiate tira primeiro as medidas ou faz primeiro o fato? Na verdade todos os fatos que o alfaiate entrega são sempre os segundos. Isto porque antes de tirar quais quer medidas ele já tem um modelo, aquilo que industrialmente se chama de molde, onde irá aplicar tais medidas. Depois porque cada fato é único, ajustado e à medida, sem haver dois iguais, nem mesmo ao molde. Ou seja, não se podem aplicar medidas sem que exista um modelo, esquemático, gráfico ou físico, prévio. Quando não há modelo é inútil cortar tecido sem forma.

 

O grande problema é este. “Onde cortar”? Nunca nenhuma medida será útil, ou algum corte eficaz, sem um molde, ou seja, sem estratégia prévia. As táticas permitem avançar palmo a palmo, a estratégia permite vencer a guerra. Estaremos moderadamente vivos enquanto soubermos nada mas não soubermos para onde ir. Enquanto expulsarmos Tirésias de Tebas, o cego profeta, mesmo vendo Penteu totalmente dilacerado pelas mãos da própria mãe. Continuando este caminho, a cortar assim, seremos insustentavelmente leves, em vez de sustentavelmente desenvolvidos. Mas moderadamente convictos de que é o nosso fado, convictos da culpa por um castigo sem crime. A não ser que nascer, crescer, viver e procurar viver melhor, na península Ibérica, Itálica, e nas ilhas gregas, seja crime. 

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