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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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O aniversário da "Geringonça"

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Ao contrário do que muita gente acha e do que possa parecer, as conspirações não se dão pela conciliação de interesses mútuos, mas sim pela convergência de interesses diferentes. O que as torna especialmente difíceis de percecionar, combater e comprovar. Se a motivação de dois agentes for, como em muitos casos, antagónica, então torna-se mesmo impossível de escrutinar.

 

Posto isto, já comentei há umas semanas atrás com alguns amigos e numa ação de retrospetiva do clima que se sentiu há 1 ano, quando começou oficialmente a denominada "geringonça" parlamentar, que me parece que há quem esteja a cozinhar um longo bolo de dissonâncias. A meu ver - e deixo aqui a aposta (aliás, como fiz com Trump), sem compromisso - parece-me que quer o Presidente, quer António Costa, como muita gente e o próprio fundador do PSD (Balsemão) e suas hostilidades, estão a preparar uma possível dissolução "funcional" da "geringonça" para, no mais tardar, finais de 2017 e início de 2018. E isso começa pela inevitavelmente pela decapitação de Pedro Passos Coelho e com a sua substituição, de modo a dar caminho a uma longa jornada de consensos ao centro e até, quem sabe, uma nova forma governativa. Para tal, é preciso também que as autárquicas sejam um desastre total para o PSD, se Passos Coelho lá chegar.

 

É aqui que entra o prefácio. Que caminhem todos no mesmo sentido, não significa que queiram todos o mesmo destino. Enquanto o Presidente, apesar de apreciar a estabilidade atual, pensa que as soluções ao centro beneficiam muito mais o funcionamento democrático e parlamentar - até e sobretudo por preconceito ideológico - já António Costa apenas se quer livrar do gancho à esquerda, que o está a prender à devolução de rendimentos, e que teme que o afogue na onda da reestruturação ou no terramoto das privatizações. Por isso, o melhor que tem a fazer é capitalizar o mediatismo das medidas de consumo interno, enquanto perspetiva uma maioria absoluta através das análises às sondagens.

 

Já dentro do PSD a leitura é semelhante, mas aposta na outra situação, que é o suicídio (mais do que provável) do PS caso abandone os acordos à Esquerda prematuramente, assim como uma cada vez mais crescente polarização do eleitorado, sobretudo se este se vir órfão de possibilidades de mudança nas suas condições de vida. Por isso é que começou paulatinamente a mudar algumas das suas posições, contando ainda com o repúdio de todos os que votando ao centro não se revejam nas reivindicações dos partidos de Esquerda que apoiam o governo. Pelo meio, há um novo player mediático que lhe tem roubado espaço, sobretudo nos soundbites mais populistas, e que goza de um rejuvenescimento graças à sua nova liderança, que é o CDS. É por isso que a estratégia só funcionará, para o PSD, se mudar os seus protagonistas.

 

E o que podemos dizer do PCP e do BE? Bom, estes têm sido os que têm feito o maior esforço, de entre todos, para assegurar verdadeiramente esta atual maioria de estabilidade. Porquê? Precisamente porque graças às imensas cedências que têm feito à política de centro do PS – desde matérias como o investimento público, às empresas públicas ou a estrutura da carga fiscal ou na questão da dívida pública – têm, por outro lado e apesar do seu peso pluma no Parlamento, conseguido aprovar diversas medidas no campo laboral, na redistribuição de riqueza e no ataque a diversos meios de privilégio, sem nunca deixar de criticar diversas vezes o próprio governo ou até o orçamento. Medidas que, sabendo da inevitável dissolução, têm feito por tentar aprovar o quanto antes, para que as possam reivindicar no tempo devido e capitalizar em função das duas frentes de batalha que se podem antecipar: os acordos centrais e a polarização. Tendo assim como objetivo cativar não só as franjas mais dinâmicas da sociedade ou as minorias ligadas aos temas fraturantes, mas sobretudo os trabalhadores (de rendimentos médios e precários) e os desempregados.

 

Ao fim de um ano é a análise cautelosa que faço aos programas internos e aos jogos de interesses que se movimentam, com subtileza, dentro do Parlamento português. Tendo sempre a consciência de que tudo isto pode não passar de um enorme erro de análise, daqui a amanhã.

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