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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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O Cinema não substitui a Política

Oscar 2017 | Reuters

É ingénuo pensar que a Arte pode substituir a Política ou vice-versa. Os Óscares são sobre a indústria de cinema americana. O maior ato político da cerimónia é, em si, meter meio mundo a discutir uma gala vista apenas por 34 milhões de pessoas, sobre filmes que quase ninguém viu, e a maioria dos que os viram foram cópias pirateadas.

 

Mas também não deixa de ser estranho ver tanta gente a fazer campanha por este ou aquele filme, antes e depois da cerimónia. Utilizando, sobretudo, argumentos mais políticos do que cinematográficos ou artísticos. É completamente abusivo achar que a atribuição do prémio a este ou àquele filme, é mais ou menos política, quando não é uma coisa nem outra. Se é para falar de cinema político, mais vale abordar um festival de cinema político. Porque, querer sobrepor esses argumentos num prémio como os Óscares – criados para credibilizar uma indústria/estética quase marginal, há 80 anos – é remeter a Arte a um papel meramente utilitário, ao serviço do momento político. Defender isso é ser-se ingénuo, ignorando até a essência da Arte, ou então autoritário.

 

Uma obra não se define eminentemente nem apenas pelo impacto imediato que possa gerar, nem somente pela sua capacidade de mobilização contextual. A Arte, acima de tudo, é inútil e intemporal. É isso que faz dela imprescindível e transcendente.

 

Nem o Guernica evitou a 2ª Guerra Mundial, nem a estátua que Picasso prometeu a Fidel nos anos sessenta chegou para salvar Cuba. O próprio Picasso, mais tarde, percebeu que a sua militância política não se podia limitar à criação artística.

 

Ao ler alguns dos argumentos que surgiram sobre a premiação ou não do melhor filme, a maioria desmerece totalmente o valor artístico da maioria dos filmes nomeados, sobretudo do vencedor do prémio principal, de Melhor Filme. Assim como do mais galardoado da edição de 2017.

 

Claro que a Política e a Arte são campos comunicantes e, tantas vezes, conflituosos no campo das ideias. Mas quando a vida é tão dramática, ainda bem que há histórias de amor para nos fazer transcender dela. Nem só de lições se faz a Arte, mas aprender a amar é fundamental. Basta ver filmes como "A Vida é Bela" (1997, real. Roberto Benigni) ou "Casablanca" (1942, real. Michael Curtiz), para perceber que os momentos difíceis se ultrapassam com histórias de amor, não com lições morais. Porque a arte não é o acontecimento, é a reflexão do homem sobre o acontecimento.

 

Além disso, o poder da Arte não é nem deve ser o do domínio das massas, defendido pelos totalitarismos, mas sim o da influência das consciências. Para isso, pouco importa a altura em que são feitos, desde que sejam intemporais. Portanto, nenhum dos filmes presentes ao prémio estava a "competir" no sentido de se anularem. São criações que se alimentam e que nos alimentam, ajudando-nos a refletir, mas também a celebrar o “significado de viver uma vida”, como disse Viola Davis. Isso pode ser político? Sim, mas é sobretudo artístico.

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