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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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O FINAL DE GAME OF THRONES ARRUINOU TODA A SÉRIE

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Vamos lá analisar então o final Game of Thrones, de uma forma pouco mais extensa, não tanto quando os livros, mas talvez um pouco mais criteriosa do que o roteiro da própria seire. Após o último episódio da série ficamos com a sensação de que os autores, David Benioff e Daniel Brett Weiss, acharam que o final estava "demasiado previsível" e resolveram inventar, dividindo-se entre criar momentos de "fan service" (correspondendo a exigências dos fãs) ou criando conclusões estapafúrdias para diversas personagens, o que conduziu a desfechos e formas não menos incongruentes para conseguir chegar a isso. Pior ainda, foi querer fazer rimas visuais e narrativas com o início da série, devolvendo personagens e momentos ao exato mesmo ponto onde começaram, como se a sua jornada de nada valesse. Isso não é entretenimento, catarse, arte ou inteligência, isso é o equivalente a passar um dia na fila de espera numa repartição pública e voltar de mãos vazias.

 

Não vou ser injusto e esquecer o enorme trabalho que foi feito e colocado em determinados aspetos da construção daquela que foi, até agora, uma das maiores produções de televisão de sempre e que, pelo menos até à quinta temporada, era para mim uma das melhores narrativas audiovisuais de sempre. Também é preciso fazer uma vénia ao esforço desta última temporada onde foram necessários dois anos para construir e destruir duas cidades desde a raiz. Tanto Winterfell como Porto Real foram realmente erguidas e destruídas, enquanto cenário, assim como o fogo, em muitas imagens, é real. Há tantos detalhes e pormenores, desde a biblioteca dos Stark às ruas da capital do reino, que só conseguimos ter noção do trabalho desenvolvido numa análise frame a frame. Onde depois encontramos um copo e duas garrafas de plástico esquecidos em cena. Este é um ótimo resumo daquilo em que se tornou Game of Thrones.

 

Com o passar das temporadas a série cresceu em termos visuais e cenográficos e diminuiu a sua capacidade de mise en scène. Isto é, na reta final "subiu de interesse e desceu de nível".

 

Mas vamos olhar para o episódio e o seu desfecho concreto. Vamos esquecer que não fez sentido nenhum antecipar a batalha contra o Rei da Noite e adiar um problema fácil de resolver na temporada anterior, contra uma Cersei Lannister isolada, quase falida e sem exército. Já para não mencionar a ideia de perder um dragão além da Muralha e depois outro à beira mar, para dar a ilusão de que afinal de contas "o jogo estava equilibrado". Já aqui, a própria série começa a quebrar a suspensão de descrença que levou quase uma década para consolidar em nós. Mas vamos aceitar isso, assim como a inexistência de um consultor de estratégia militar medieval, capaz de explicar coisas básicas, desde como montar um cerco a uma cidade a como fazer trincheiras à frente desta e não atrás dos soldados. Passamos por cima disso, assim como Drogon que passa por cima da cidade e lança fogo sobre tudo e todos e que afinal não morre com nenhuma flecha (lembrando que o irmão sim, morreu com três) e vamos olhar para todo o desfecho durante e após a morte de Daenerys.

 

Após o seu discurso tirânico e após o seu discurso totalitário, quer para com os seus soldados, como para com Jon Snow, admitindo que com ela ninguém tem mais escolha, o seu delírio de poder e força chega a convencê-la de que nada nem ninguém pode enfrentar ou contradizer a sua vontade. Com uma imagem brilhante, onde as asas de Drogon ficam atrás de si, como símbolo aterrorizante do seu poder destrutivo, momentos antes, essa sua certeza quase malévola entra em rota de colisão com a necessidade, dever e votos de Jon Snow, que sacrifica o amor que tem por ela, pelo amor que tem pela humanidade. Esta é a lição de todas as obras de Shakespeare: o amor conduz sempre ao sofrimento e à tragédia.

 

Trágico foi também tudo o que aconteceu daqui em diante, a começar pela coroação de Bran!

 

Bran, o vilão

 

Apesar de ser um prisioneiro, Tyrion é levado ao conselho onde os representantes das principais casas ainda vivas - algumas até ressuscitadas, como Dorne - e não só tem a altivez de falar, como escolhe o rei e o novo modelo de governação. É o chamado pitch perfect! E quando questionado sobre isso, Bran assume que já sabia que este seria o seu destino.

 

Ora, se já sabia, isso faz de Bran o verdadeiro vilão e o grande manipulador da história. Uma vez que ele próprio divulgou a verdadeira origem biológica do irmão, algo que foi decisivo na convicção de Daenerys de que isso poderia ser uma ameaça para ela, e a razão dela ser traída pelos seus conselheiros, ao mesmo tempo que motivou o afastamento sentimental de Jon Snow.

 

Além disso, ele também não tinha, nem de perto nem de longe, "a melhor história" para assumir o trono como "Bran, o Quebrado", algo que nos livros ele se autointitula. Até porque, ele próprio afirma estar acima de qualquer vontade, uma vez que vivia mais no passado que no presente. Pois, enquanto "Corvo de três olhos", tanto o seu treinamento como o seu espírito, tinham chegado a um nível superior de entendimento do mundo como um todo. É como dar um brinquedo de madeira a alguém que tem uma playstation. Ainda por cima, se a ideia era convencer o povo, ele não só não foi nem é um herói de guerra, como possivelmente foi ele que permitiu a passagem do Rei da Noite para o sul, ao se deixar marcar. Nem vou falar do Hodor...

 

Por fim, é necessário referir que não seria possível ele ser o Corvo no Sul, uma vez que os seus poderes derivam sobretudo dos represeiros vermelhos, que só existem no norte.

 

Tyrion, o conspirador

 

Realmente, o que é que ele bebeu para achar que a melhor pessoa para o trono é alguém totalmente desligado da efemeridade da vida, frio e que parece ter perdido toda a capacidade de empatia para com os vivos à sua volta, desde que Meera Reed carregou com ele quilómetros a fio sobre a neve?! Ele queria uma boa história? Até a história do Gendry seria bem mais carismática: o bastardo do rei que sobreviveu à tentativa de assassinato da rainha, que sobreviveu à tortura da bruxa do tio, que foi além da muralha e voltou para salvar o Rei do Norte, que fez as armas dos vivos contra os mortos. Seria uma escolha mais plausível, do que o rei dos corvos.

 

Além disso, havia um rei preso, que parece que ninguém apoiou. Como e por quê?! Nisto, Tyrion não só sobrevive a mais de uma traição, não morre quando confronta a rainha, nem na prisão e ainda vai ser Mão do Rei, após conspirar para matar a anterior rainha. Depois exila Jon, por fazer o que ele pediu...

 

Jon Snow, o rei que nunca foi

Por falar em possíveis reis com uma ótima história. Pois é, afinal o rapaz que "não sabe de nada", foi capaz de salvar o mundo, duas vezes! Jon Snow percorreu todos os passos da jornada do herói, o altruísta sem ambição pessoal, o bebé cuja origem é escondia, a pessoa que se sacrificou três vezes: quando perde o seu primeiro amor, pelo dever; quando morre para proteger os selvagens e ressuscita; quando é praticamente obrigado a matar o seu novo amor, em confronto com o seu dever e convicção de salvar o mundo dos maiores perigos contra a humanidade! Para quê?

 

Se não morreu nesse momento, se nem Drogon o atacou e ainda levou o corpo de Daenerys, numa sala onde não havia qualquer soldado, se ninguém o viu matar Daenerys, como é que foi capturado e não foi imediatamente morto? Se não foi coroado rei, então ficou vivo para quê?

 

Se o objetivo era voltar para a Patrulha da Noite, como exilado, então para quê revelar o seu passado e retirá-lo da Patrulha? Só para servir o propósito de ajudar Bran na sua ascenção ao poder?

Por outro lado, tendo sido derrotado o Rei da Noite, tendo caído uma parte da Muralha, sendo o Norte um país à parte, qual é a jurisdição dos seis reinos sobre o território além da muralha e qual é a ideia de manter uma patrulha?

 

Além disso, se ele salvou os sete reinos de alguém que acabou de matar um milhão de pessoas com uma bomba atómica, a maioria civis, além dos soldados dessa rainha, como e por que razão alguém o haveria de odiar? Por outro lado, como a própria série referiu, várias vezes, ele era descendente direto do rei e as casas de Westeros sabiam disso, como é que ninguém referiu isso? Como é que ninguém defendeu a vida e a herança dele, que salvou toda a gente?

 

Voltar a enviar Jon Snow para a Muralha é simplesmente ridículo...

 

O melhor dos seus piores desfechos devia ter passado por uma aclamação popular e uma rejeição dele mesmo, ele mesmo decidir ir além da muralha proteger o povo selvagem, ou então, no máximo ter ficado exilado no Norte, onde nunca deixou de ser amado e onde era rei, um reino que tinha acabado de se tornar independente outra vez!

 

Também é difícil de compreender como é que a pessoa com mais conhecimento do mundo, que acabou de se tornar rei, no seu primeiro decreto oficial decreta a independência ao reino da sua família?! Ou seja, os Stark são reis no Norte e no Sul, além da Muralha e nos mares?!

 

Ainda bem que as Ilhas de Ferro não exigiram a sua independência, confirme tinha sido prometido pela rainha...

 

Um final (feliz?!) para cada um...

 

Briene: Jura proteger Sansa, mas vai para a Guarda Real, de outro reino, e em vez de escrever no livro os feitos dela, como a primeira mulher cavaleira de sempre, qual Joana d'Arc, não, escreve os feitos do tipo que dormiu com ela e a abandonou para ficar com a ex. Ao menos dá seguimento à sua visão honrada da vida.

 

Sam: não termina a sua formação, está casado e com filhos, mas acaba como grande Meistre, como? Era o melhor amigo do Jon Snow, teve a sua própria família queimada, acompanhou o amigo em toda a sua jornada e deve-lhe a vida várias vezes, mas não se lembrou de defender a sua legitimidade ao trono, apesar de ter sido ele que lhe contou sobre a sua verdadeira origem e direito!



Imaculados e Dothraki: não sei como é os primeiros não mataram Jon Snow e Tiryon de imediato, nem como é que os segundos não os defenderam ou debandaram, isto porque a única lei que os dothraki venaram é a força e foi precisamente isso que os levou apoiar a Daenerys.

 

Sansa e Arya foram as únicas personagens cuja conclusão foi satisfatória, mais a segunda que a primeira, porque na ausência de melhor rei, Sansa sim devia ter sido rainha, não do Norte mas dos 7 Reinos e Além da Muralha. Ao menos Arya será uma eterna exploradora, como sempre foi o seu objetivo.

 

Porém, apesar de tudo isto, no final desta série podemos ficar penas com a frase da primeira temporada, "quando jogas o jogo dos tronos, ou ganhas ou morres". E foi isso que aconteceu aos autores da série, no meio da sua fadiga pessoal e desejo de fazer novos projetos, sem ter a humildade de delegar este nas mãos de alguém que estivesse disposto a ser mais ponderado nas resoluções finais e na extensão da produção. Podiam ter feito 15 episódios para nos convencer de cada solução, mas preferiram amarrar tudo em seis episódios, escritos num vão de escada e interpretados em função da necessidade de terminar a história com uma enorme ambiguidade de comportamentos, sem nexus causal entre os acontecimentos! Não era preciso um "final Disney", mas tendo em contra que os escritores foram contratados para fazer a trilogia de Star Wars, começo a temer pelo futuro da própria Disney.

 

 

O problema não é a vontade de querer ver um final diferente, mas sim ter visto um final sem qualquer plausibilidade, destruindo toda a razão de existir e ser enquanto história e narrativa, que podia ter entrado para os clássicos de culto, mas que no final, deitou toda a sua bagagem cultural para o lixo e transformou se numa tragicomédia.

 

E digo isto sem qualquer regozijo, mas sim com desalento, por ser alguém que já apanhou o comboio a meio, mas cuja complexidade do enredo me deslumbrou e arrebatou desde logo pela sua qualidade e coerência. É a ausência disso, misturada com uma certa falta de tempo e até cuidado que tiram várias estrelas a uma obra que parece hoje mais incompleta com oito temporadas, do que há uns anos atrás, apenas com seis.



ps: foi tão pouco memorável que até para achar uma imagem icónica para ilustrar o episódio foi impossível...

 

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