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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

O horror, a comoção e os estúpidos: somos todos refugiados!

DOGAN NEWS AGENCY/EPA

 Imagem © DOGAN NEWS AGENCY/EPA

 

Enquanto uma parte dos europeus estava de férias, desfrutando do sol e da maresia na praia, centenas de milhares de pessoas (ou milhões), que sonham ser acolhidos na Europa, dão à costa mortos por afogamento, aparecem mortos numa carrinha de transporte de carne, são deportados de comboio e são vedados de entrar na Europa com um muro de arame farpado. Tudo menos: “Bem-vindos! Welcome! Bienvenu! Willkommen! ترحيب !”

 

Estamos em 2015 a viver a pior calamidade humanitária desde a 2ª Guerra Mundial. Já não se trata apenas dos valores ditos ‘europeus’, trata-se do valor que damos à vida humana.

 

É difícil ter o discernimento necessário e fundamental para falar de uma catástrofe quando ela ainda está a decorrer. Sobretudo quando nem todos estão no centro dela, apesar de sermos todos parte de tudo o que lhe diz respeito. Porque ao contrário do que alguém possa pensar, o que está a acontecer neste momento, nas fronteiras terrestres e marítimas da Europa, diz respeito a todos os seres humanos do planeta, a toda a Humanidade e Civilização. Não há uma linha, uma fronteira, muro ou uma gota de água que possa diferenciar ou separar qualquer vida humana dos milhões de pessoas que procuram asilo, abrigo e trabalho na Europa. Quem pensar o contrário é pura e simplesmente estúpido. O Holocausto só foi possível graças à indiferença, conformismo e comodidade de todos os que recusaram acreditar no inimaginável, até verem com os próprios olhos. Assim como hoje, foi preciso olhar para imagem de Aylan Kuri, de três anos, morto por afogamento numa praia, estampada nas capas e páginas de quase todos os jornais europeus para que se olhasse de frente para a questão (finalmente). Mas não chega. A simples e efémera comoção não chega para nada!

 

O que está a acontecer não é se não um pequeno, mas estrondoso e horrendo, vislumbre do que está para se abater sobre nós, sobre a Europa e sobre o mundo, no auge da presunção do desenvolvimento da tecnologia, da inteligência e da superioridade do intelecto humano. Um pronúncio ruidoso e mortal, como as bombas que se abateram sobre Guernica em 26 de Abril de 1937 antes da 2ª Guerra Mundial e do Holocausto, mas que ninguém é capaz de absorver, nem parar para compreender a brutalidade do que se trata. Estamos a assistir impávidos, imóveis e apenas momentaneamente comovidos pela morte de milhões de inocentes estampada em dezenas de fotografias, em prol da argumentação inútil mas cómoda de quem não emerge morto das águas.

 

E com o cair da noite, enquanto outros tantos tentam a sorte numa barca imprópria para o excesso de pessoas que carrega e para a força das ondas que enfrenta, ou por entre uma brecha de arame, ou num contentor selado, voltamos a esquecer-nos de tudo. Durante o sono, voltamos a acreditar que há uma diferença entre “eles” e “nós”. E no dia seguinte, enquanto “eles” continuam a tentar sentir terra debaixo dos pés, “nós” já deixámos de sentir a emoção de um relâmpago fugaz que antecipa a próxima sensação de uma vivência insaciável que nos distraiu do novo assunto mediático: um candidato a presidente nos EUA; um panda num Zoo; uma transferência futebolística; uma nova moda qualquer, uma nova tendência pronta para consumo.

 

Aliás, esta recente imagem, de uma criança morta sobre a areia de uma praia numa ilha grega, só chegou até nós porque os jornais insistiram mesmo que chegasse. Os jornais que ainda são feitos de editores e jornalistas que decidiram dar um alerta que fosse audível. Pois, já no dia 2 de setembro (um dia antes), o Facebook – cujo proprietário é o oitavo homem mais rico do mundo – tinha banido a partilha de outras fotos, igualmente chocantes. Pois estas ditas “redes sociais”, como explica Eli Pariser na sua TED Talk, baseiam-se na combinação algorítmica das nossas preferências, evitando confrontar-nos com o que não queremos ou “não gostamos”. Alienando-nos da informação em bolhas, por preferências, onde o conhecimento e a humanidade são desprezados em prol do entretenimento e do consumo publicitário. Em parte, é também a Internet que nos permite continuar a assobiar para o lado, da mesma forma que será ela que nos irá fazer tirar qualquer significado àquelas imagens, pela efemeridade do clique e do desabafo.

 

Assim como tem sido a internet que nos tem desincentivado a consumir Cultura, por exemplo, porque “não temos interesse”, sem reconhecermos que a Cultura é um quesito e uma necessidade fundamental da Civilização. Mas não, graças ao crescente magnetismo das tecnologias e das suas aplicações, temos caminhado apenas para a estupidificação da sociedade. Para a polarização e tensão crescente. Hoje em dia não saímos para conversar com alguém, utilizamos o chat. Já não vamos andar de bicicleta só pelo prazer de sentir o vento na cara, somos ciclistas. Já não olhamos ninguém nos olhos, quanto mais fazemos uma chamada ou conferência. Já não temos relações, utilizamos aplicações de encontros e seleção de pessoas. E por aí fora… até deixarmos de reconhecer o Horror da guerra, da escravatura, da morte e do desespero de alguém que é em tudo semelhante a nós, inclusive nos sonhos e anseios. Ou, por contraste, tornarmo-nos terroristas.

 

Ao olhar para a desolação de quem arrisca o que tem, apenas a vida, para fugir ao flagelo descontrolado da guerra, escravidão, opressão e pobreza generalizadas em África e no Magrebe em especial; vendo a escalada de terrorismo, violência, atrevimento, fanatismo e enriquecimento do autodenominado estado Islâmico (que pouco ou nada tem de religioso ou islâmico); coincidindo com o enfraquecimento monetário dos países do sul europeu, o recuo de tropas operacionais norte-americanas no Golfo, o assédio russo constante e o desnorte da NATO; é imperioso que a Europa - em especial a EU como um todo - não fique à espera da eleição de um fanático para presidente dos EUA, para tomar uma atitude e encontrar soluções humanitárias, diplomáticas e monetárias... porque, se assim for, estarão reunidos todos os ingredientes para correr muito mal. Muito pior do que já está e pior do que ocorreu nos anos 90 ou em 2001... ninguém merece que se repita o cenário de 1940-45 ou a incerteza de 1945-91.

 

Para já, as pessoas estão a morrer e a passar fome porque as fronteiras europeias continuam fechadas, e a sua entrada nesses países é considerada ilegal. Sendo ilegal, são repatriados. As pessoas não querem ser repatriadas porque os seus países de origem, pobres, estão em guerra, e são palco de grandes desigualdades humanitárias. Esses países são também alguns dos maiores produtores de minérios e combustíveis do mundo. Esses bens são vendidos e explorados por empresas que pertencem aos tais países europeus, desenvolvidos, e ricos... E as pessoas que vivem e têm emprego nesses países europeus, desenvolvidos e ricos, podem comprar produtos produzidos através dos bens dos países pobres e em guerra, e ao mesmo tempo alimentar esses produtos com combustíveis produzidos nesses países, de onde as pessoas fogem e passam fome. E porque têm emprego, podem tirar férias para passar uma semana a atirar tomates uns aos outros numa cidade espanhola, ou numa praia algarvia a apanhar sol... Simplesmente, podem.

 

No fundo, somos todos refugiados, mas apenas alguns estão condenados ao massacre, à indiferença, à arrogância e prepotência de outros tantos, que no conforto e segurança da sua casa, das suas ruas, das suas instituições e meios, discutem se os podem acolher ou não e a quantos, deixando deixa ativa uma normativa que dá autoridade às companhias aéreas de proibir o embarque de passageiros desses países, por €40 ou €50, sob pena de sanção sobre as mesmas. Forçando-os desta forma a entregarem-se às redes de tráfico humano, por €5000 mais a vida. E ainda há quem pergunte “quem os obrigou a por a vida em risco foi a Europa”? Não, foi o Ocidente imoral que a Europa ajudou a construir. Como diria Picasso sobre Gernica, “foram vocês”.

 

*Crónica de 04 de setembro de 15, em "O Vento que Passa", Tribunaalentejo.pt. 

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