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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

O IMPORTANTE É SALVAR A DEMOCRACIA

Eleições legislativas 2019Um dos temas mais recorrentes nas análises aos resultados eleitorais das Legislativas em Portugal, tem sido o pesar relativamente à eleição de dois populistas, um dos quais assumidamente de extrema-direita (o “Chega!” é acusado roubar o programa do PNR). Mas, ter eleições em 2019 sem que haja qualquer expressão destes movimentos, é como querer acampar sem ter que lidar com os mosquitos.

Da mesma forma que é um erro transformar derrotas em vitórias morais, não podemos cair no pecado de olhar para um resultado vitorioso das esquerdas e, sobretudo, do Socialismo Democrático unificado numa sociedade de Bem-Estar Social, como uma derrota. Apesar da nódoa que cai sobre o pano, devemos lembrar-nos de que “muito mais é o que nos une, do que aquilo que nos separa”. O PS tem assim uma oportunidade de dar continuidade ao ótimo trabalho que encetou no executivo anterior, e os partidos à sua esquerda, incluindo o recém-eleito “Livre”, ganham uma oportunidade para renovar a sua vontade e capacidade de influenciar ativamente os contrapesos da governação. É esse o desafio.

Esse equilíbrio, já antes conseguido, foi sem dúvida recompensado, apesar da guerrilha de desinformação que tomou parte da atividade política nacional e internacional. Tendo em conta esse cenário, esta é uma vitória estrondosa da sociedade que acredita na atividade parlamentar e na capacidade da política em mudar a sociedade. Embora o PS tenha deixado escapar a maioria absoluta, não acredito que esta fosse uma realidade plausível, sobretudo quando olhamos para a desconfiança plantada em diversos setores – como os médicos, professores, enfermeiros ou magistrados – e alguns dos quais lutaram ativamente contra esse cenário.

Outro assunto (já recorrente) são os números da abstenção, que terá atingido cerca de 45%. Sobre isso, tenho duas coisas a dizer: primeiro, que nenhum comentário moralista ou paternalista acerca de quem não votou vai contribuir para inverter o cenário, pois, um dos problemas diretamente relacionados com essa desmotivação política é a constante elitização das questões e progressivo afastamento da comunicação com a população; em segundo, não se pode criticar a abstenção dizendo que esses votos importam para a política, sem antes demonstrar que a politica importa para a vida das pessoas.

Aquilo que temos assistido, sobretudo nas últimas décadas, é um crescimento sem oposição de um discurso “antissistema”, que visa empolar esse sentimento de afastamento da “classe política” face à população e aos seus problemas, que na maioria dos casos é centralizada em preconceitos e amplificada pelos grandes meios de comunicação, como a TV.

Não por acaso, André Ventura (“Chega!” e ex-PSD) é comentador da CMTV, João Cotrim Figueiredo (“Iniciativa Liberal”) é ex-diretor da TVI (em processo de aglutinação pela Cofina, dona ca CMTV) e ambos têm ecos de apoio no Observador. Ambos falam para um público refugiado numa bolha ideológica e raptados pela alienação e desinformação – foram inúmeros os memes e as publicações com mentiras que vi serem partilhadas por “pessoas de bem”, consciente ou inconscientemente, provenientes de ambos – e aqui, a sua eleição é muito mais fruto de uma implosão da Direita do que do demérito da Esquerda. O que não deixa de ser preocupante, se olharmos para os percursos de Trump, Bolsonaro e Boris, ambos dissidentes ou marginais políticos que conseguiram conquistar um terço do setor de direita, incomunicável com o espectro oposto.

O percurso titubeante, quer do CDS, que tanto explorou o populismo, como procurava apresentar-se como moderado, quer do PSD, que teve dificuldades em se consolidar na liderança de Rui Rio e acolher uma narrativa de alternativa programática sem apresentar uma verdadeira visão de país que se distanciasse do anterior governo, abriu espaço ao descontentamento e ao desamparo acolhidos no radicalismo. O primeiro ficou reduzido a um terço (de 18 passou para 5), o outro só conseguiu conter a queda ao se agarrar a um caso mediático (Tancos) na reta final, o que não agoira nada de bom para uma direita moderada que no futuro terá dificuldades em resistir à demagogia e ao populismo mediático. Esperemos que não seja esse o caminho e que se consigam distanciar daquilo que realmente importa: dos fascistas e do discurso destrutivo que se alimenta do preconceito, da xenofobia, do nacionalismo supremacista, ultraliberal e conservador, homofóbico e racista.

Portugal continua a ser um exemplo mundial? Sim. Talvez seja desanimador pensar que não foi possível estancar a sangria da extrema-direita populista, apesar da vitória absoluta da Esquerda, mas será que há algum país no mundo capaz de resistir ao crescimento globalista deste fenómeno? Eu não acredito.

Basta ver como o PAN também cresceu, apesar de toda uma campanha que se levantou contra ele, apropriando-se de causas que não domina e para as quais apenas tem contribuído negativamente. Uma delas tem sido o pseudo-ambientalismo, anacrónico, e que tentou abraçar apenas por oportunismo modista e mediático. Nesse campo muito se tem dito da despedida de Heloísa Apolónia (há 24 anos eleita pelos “Verdes” - CDU), como uma perda do PCP, porém, a própria já esclareceu na sua página oficial, que o mesmo se deveu a uma escolha sua, ao não concorrer por Setúbal e sim por Leiria.

Assim, resta-nos esperar pelos resultados das negociações entre o PS e os possíveis parceiros de governação, tendo em conta que desta vez se encontra numa posição muito mais forte de negociação, mas mais difícil de manutenção, face à pressão social. Se hoje o PS pode governar com a abstenção da Esquerda (porque tem mais votos que toda a Direita), é de antever muito mais combatividade dessa mesma Esquerda, sobretudo naquela assente em movimentos sociais, sindicais e na consolidação da redistribuição dos direitos sociais e do poder aquisitivo – alocada, por exemplo, na ala do PCP que nunca se contentou com a velocidade das correções e dos acertos do último governo – e que na última legislatura sempre teve um papel duplo, tanto de apoio como de contestação.

Mas é essa luta que devemos normalizar, porque a democracia deve ser agitação e não o entorpecimento, que só ajuda os movimentos extremistas. Aliás, em Portugal, à exceção de três maiorias absolutas, a sociedade e a democracia desenvolveram-se sempre a reboque dessa negociação, no pós-25 de Abril, na década de noventa ou mais recentemente, com a liderança e lucidez de António Costa. Se a polarização de vários setores da sociedade está aí e deve ser enfrentada e desmantelada com seriedade, quer com uma aposta veemente dos direitos humanos, como dos princípios básicos e fundacionais da democracia e do ideal social, igualitário e redistributivo, que deram e dão forma a um país tão diverso e múltiplo como Portugal. Também e não por acaso, nunca houve tantas mulheres (três delas negras) nem tantos jovens no parlamento e isso deve ser um enorme sinal de esperança e confiança de que seja encontrado o repelente necessário para salvar a Democracia!

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p.s.: talvez falte aqui uma análise às zonas onde os extremistas mais cresceram, sobretudo André Ventura, que em zonas como o Alentejo chegou a 2%. O que mostra não só uma tendência mundial, onde as zonas mais isoladas e abandonadas do interior ficam reféns da demagogia que lhes chega pelas TVs e Jornais de café; como a tendência a colher apoio no conservadorismo latente dessas regiões e no abandono da política de proximidade que a Esquerda também deixou de fazer em muitos casos. Esse é o problema e a solução, se queremos salvar a democracia, os democratas têm que invadir as TVs, a Internet e os cafés.

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