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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Parabéns e obrigado, José.

© Jean Gaumy/Magnum Photos, outubro de 1990, Lisboa

José Saramago completaria 97 anos hoje. Depois de superado o trauma pela imposição d’O Memorial do Convento na escola, tornou-se o meu escritor e pensador predileto. Sempre que abro um romance seu, leio-o num sopro. Infelizmente, não consegui carregar comigo os seus livros, as suas crónicas de jornal recortadas, as biografias e os cadernos, cheios de apontamentos e citações escolhidas a dedo de entre a sua obra, caramba. Contudo, já comprei mais uma obra dele para me acompanhar na minha viagem, como o seu elefante, numa jangada sobre o Atlântico.

Além do Nobel, Saramago deu à literatura portuguesa perspetiva, pensamento e é seguramente um dos escritores que mais influenciou novos autores, desde os temas à forma. Longe de ser perfeito, é nas hesitações que ele mais nos prende. Que seria de nós se fossemos todos cegos? Seríamos capazes de ver aquilo que realmente somos? O que aconteceria à nossa identidade se descobríssemos outro idêntico a nós, quando nos definimos através das semelhanças e não pelas diferenças? O que aconteceria se após recuperarmos a visão ninguém quisesse votar? E se ninguém votar, será que as elites saberiam lidar com a insurgência ou utilizariam o momento para perpetrar um golpe de estado? Qual seria o sentido da vida a partir do momento em que deixássemos de morrer ou tivéssemos que fugir do país para o conseguir? Até que pondo as massas sociais do passado foram esmagadas pelas obras faraónicas fruto das futilidades inerentes aos soberanos das terras, alheios à vida, aos sentimentos e à ciência do amor e da alma? O que são as riquezas de um país e de uma terra, se não a força e coragem de todos os que se levantam do chão para lutar por um amanhã melhor?

Talvez nunca consiga ler toda a obra de Saramago, nem quero. Se alguma vez estiver na eminência de chegar a esse ponto, vou parar, num livro, num capítulo ou numa página antes. Prefiro nunca terminar, do que chegar ao fim e perder o sentido de continuar a descobrir e a aprender, como quem fica desamparado depois de concluir uma missão. Prefiro perder uma aula, do que dar o curso por terminado. A bibliografia de Saramago é um dos maiores cursos de Língua Portuguesa que existem. Sobretudo por não se ater ao básico, sendo simultaneamente simples, mas explorando a complexidade do pensamento humano através da vida.

Num mundo submerso em tanta cegueira, repleto de tantos ódios, tanta irracionalidade, tanto desamor, tanto fundamentalismo religioso, tanta purga e violência, tanta desumanidade, José Saramago e a sua obra continuam a fazer-nos falta. Saramago, o escritor das vírgulas e dos pontos finais, que nos arrebata no ritmo das letras, continua a fazer sentido e nunca deixará de ser atual, necessário, cirúrgico e perspicaz ao pensar no menos óbvio, ao repescar o essencial, ao refletir no fundamental. Continua a ser tão necessário como os dicionários, algo que ele também tinha sempre à mão e que eu me habituei a carregar para todo o lado, tentando imitar esse hábito de explorar os significados na descoberta das palavras e dos vocabulários, para chegar às pessoas.

Obrigado Saramago,
por abrires os olhos deste cego.

Foto: © Jean Gaumy/Magnum Photos, outubro de 1990, Lisboa.

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