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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

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Portugal dos Pequenitos

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Nada define melhor a visão de mundo da maioria dos portugueses do que o parque temático criado pelo Estado Novo, o Portugal dos Pequenitos, com o intuito de educar pais e filhos sobre a dimensão do império português espalhado pelo mundo. Algo que apenas rivaliza com a opulência ao redor do padrão dos descobrimentos, reconstruído em Belém, como apologia às façanhas dos navegadores lusos. Se num o visitante se sente enorme face à variedade de lugares replicados em miniatura, no outro é esmagado pela opulência monumentaliza na glória eterna dos homens que desbravaram os mares. Os símbolos, os mitos e a narrativa arquitetónica do império colonial, religioso e unificado, tornam-se numa extensão da personalidade lusa, que se sente legitimada e empoderada. Sobre a escravidão, os traumas, os paradoxos, os conflitos e a violência, os erros e a falência dessa estrutura, nem uma linha. Por isso, quando confrontado com a fragilidade dessa arquitetura ideológica, o pequeno-português sente-se espoliado da sua verdade: os portugueses adoram enaltecer os seus heróis, mas detestam a sua história.

Da mesma forma que é incapaz de olhar e entender a estrutura de poder bastante frágil em que assentaram as cruzadas de conquista do norte de África e sucessiva exploração das vias marítimas até à Índia, o português quer-se grande e descendente do mesmo heroísmo que vê e contempla num passado anacrónico onde “tudo valeu a pena”. Por isso se esforça em legitimar, negar ou desvalorizar qualquer indício, questão ou facto que macule a aura de perfeição desse passado, onde “fomos donos de metade do mundo”. Por isso defende a honra, a visão e os feitos desses homens mitológicos, com o mesmo afinco com que muitos deles defenderam a evangelização dos povos indígenas (que passaram de 3 milhões, em 1500, para menos de metade em 70 anos), ou a escravização dos homens de pele negra e ascendência africana, para bem do país, da economia e da riqueza de um império assente em dividendos pagos à custa das divisas do ouro, da prata, do açúcar e da madeira amazónica. Assim como é incapaz de se enxergar como oprimido durante todo esse processo de vassalagem, o português é incapaz de ver a opressão de que foi autor.

Assim se perpetuou e enraizou a pobreza inexplicável de um país que explorou as maiores minas de ouro do mundo, que dominou o tráfico de escravos no atlântico (mais de 12,5 milhões de escravos transportados para a América), que esteve em guerra contra os holandeses por causa dos engenhos de açúcar no Brasil, comprando-lhes cada pedaço de terra, que dominou as rotas comerciais para a Índia, na qual muitas especiarias valiam mais ao grama do que o próprio ouro. A ocultação da escravidão e o enaltecimento de um “colonialismo humanizado”, serve como atenuante das contradições que o português enfrenta, entre a pequenez do império e a grandiosidade dos homens que o compunham e dos feitos a eles atribuídos. Um processo nacionalista (de criação do imaginário da Nação) pelo qual passaram os sucessivos mecanismos de eugenia, primeiro no continente, depois nas colónias e por fim no imaginário. Por exemplo, não existe um único museu sobre a escravidão no país.

As marcas da escravidão na história dos portugueses tornaram-se tão invisíveis quanto os negros na sociedade portuguesa. Expurgados e ostracizados da própria cidadania, radicados em lugares periféricos, sem acesso ao “lugar de fala” em academias, jornais e espaços públicos e ou políticos, os negros, os indígenas, os brasileiros e os africanos em geral, são vistos como intrusos da pátria. Por isso, qualquer processo de redescoberta histórica – mesmo que bastante documentado – ou que coloque em causa as narrativas enraizadas na psique social, salvaguardada pelas elites (estatais e religiosas) que ecoam na pequeno-burguesia escolarizada, são vistos como uma afronta. Logo, qualquer ato de repúdio se converte numa falsa equivalência: entre os linchamentos dos supremacistas e a pichação de estátuas (criadas em pleno 2017!); ou entre estas e o terrorismo islâmico; ou entre o antirracismo e os movimentos fascistas; ou então, numa tese aparentemente apaziguadora, mas igualmente hegemónica, a ideia de que lutar é prejudicial à reivindicação.

Agarrados a um presente onde os seus pequenos privilégios ainda passam pela diminuição – social, intelectual e material – dos outros, o pequeno português (às vezes até engajado em pautas progressistas), é capaz de reproduzir exatamente os mesmos argumentos morais, ou as mesmas falácias lógicas e de reproduzir as mesmas mentiras (e meias verdades) com que no Brasil se continuam a dizimar indígenas, ostracizar quilombos, devastar a natureza e encarcerar negros, assim como nos EUA. O português exportou o racismo que afirma combater na América, reproduzindo os mesmos hábitos que fizeram dele um explorador e hoje um privilegiado europeu.

Navegando entre a ignorância e a hipocrisia, os pequenos portugueses “heróis do mar”, rejeitam o próprio reflexo no espelho, preferindo uma caricatura da história do que um retrato realista. Porque isso significaria abdicar do pouco poder que ainda acham deter: controlar as narrativas no espaço público.

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