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Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Vetores da Inutilidade

Poesia, Atualidade, Crítica, Opinião, Artes e Cultura. Um blog por João M. Pereirinha

Temos que barrar a marcha dos fascistas

© NUNO SARAIVA

Os fascistas são os mesmos, os tempos é que mudaram. Há um ano pouca importância se dava à extrema-direita em Portugal, à parte de alguma satirização que se fazia com um partido que parecia reunir todo o tipo de tresloucados, em torno de uma figura histriônica, saída das fileiras de um dos maiores partidos da direita, embalada pelos programas de futebol, envolta em ilegalidades, com um discurso preconceituoso, racista, machista, xenófobo, homofóbico e ultraliberal, que queria "expulsar os estrangeiros" e "privatizar" tudo. No entanto, as grandes preocupações da "opinião pública" eram a maioria absoluta ou não do PS e o apoio ou não do PSD, por entre as alegações de interferência na RTP ou a greve de camionistas (cujo promotor também se aliou ao Chega) que levou muita gente a encher galões de gazolina. A bomba do fascismo estava armada e explodiu após as eleições, com a entrada de um partido de extrema-direita no parlamento. De lá para cá, a marcha lenta dos fascistas acelerou o passo. 

 

Desde então, os casos de abuso multiplicaram-se um pouco por todo o país, em particular o racismo, a xenofobia e a homofobia. Uma consequência direta da legitimação criada pela tomada de posse de um deputado que desde início sequestrou o espaço público em torno dos seus ataques racistas constantes, imitados entretanto por outros membros das fileiras do CDS, do PSD e da IL, cuja ligação, sabe-se agora, é mais do que retórica e estende-se inclusive aos patrocinadores e apoios empresariais que reúnem à sua volta. Parece que muito mais é o que os une do que aquilo que os separa. O próprio Rui Rio (com o seu ar de aparente moderação) admite a possibilidade de união com o Chega, se ele se tornar "mais moderado"...

 

Entretanto o Chega e o seu deputado único têm mostrado a sua moderação, em ações como: sugerir que uma deputada seja expulsa do país por ser negra; sugerir medidas de isolamento específico para a comunidade cigana; fazer cumprimentos nazis em comícios ou em manifestações contra a luta antirracista (apesar de Mário Machado ter pedido para que não se mostrassem suásticas); e a filiação de nazis nas suas fileiras; ameaçar de censura o Twitter; ameaçar a esquerda de convocar contra-manifestações sempre que ela sair à rua; ser contra as cerimónias do 25 de Abril; endossar e acolher ameaças a deputados antirracistas; afirmar que é um enviado de Deus; ou sugerir a castração como método de punição penal. 

 

Enfim, como se não bastasse, os seus adeptos e apoiantes também não se ficam atrás com coisas como: matar um ator com quatro tiros, por ser negro, e admitir essa atitude; espancar uma mulher negra, porque a filha não transportava o passe do autocarro, que é gratuito; fazer listas de pessoas que denunciam abusos policiais e expô-las, identificando-as, numa página de polícias anónimos; espancar um cabo-verdiano até à morte à saída de uma discoteca; a formação de novos partidos de extrema-direita, mas com os mesmos protagonistas (alguns deles condenados por assassinar uma pessoa); uma onda crescente de xenofobia e atitudes racistas; fazer graffiti com frases racistas; vigílias ao estilo "Ku Klux Klan" em frente à sede da SOS Racismo; ou o envio de e-mails de ameaças a deputados e às suas famílias para que abandonem o Parlamento. Já para não falar de forças de segurança que processam um jornal e um cartoonista. De facto, os fascistas não precisam de chegar ao poder para influenciar as sociedades. Como movimento que se pretende de massas, eles tendem por empurrar a sociedade para o abismo, mesmo antes de tomar as redias do poder... Não é preciso um grande número de fascistas para soltar o fascismo. 

 

E sempre cá andaram, embora de forma enrustida e com medo de se assumir, seja pela rejeição social ou pela falta de respaldo mediático. Coisas que não são indiferentes à eleição de alguém que agrega toda a ideologia de extrema-direita no Parlamento. Mas sempre foi assim, os fascistas sempre chegaram ao poder de forma legítima, endossados pelos liberais, perante a passividade dos sociais-democratas, que não os viam como ameaça ou que os preferiram aos socialistas ou comunistas, por achar que seriam controláveis. Não são, o seu projeto consiste numa destruição indomável dos pilares da sociedade e por isso se empenham tanto numa narrativa que visa diabolizar as forças antifascistas, antirracistas e o socialismo, o comunismo, o feminismo e qualquer ideia de poder popular igualitário e solidário.

 

Porém, não basta saber disso para os dissuadir ou diminuir a sua capacidade de crescer, que muitas vezes, nem sempre, ganha espaço entre a classe trabalhadora, muitas vezes despolitizada e frustrada pela falta de respostas e soluções no espectro radical da esquerda; ou sequestrada pela retórica da elite fascista que se apoia no nacionalismo, no militarismo e numa masculinidade pedante que pretende roubar a retórica coletivista da esquerda, por norma desagregada, e por vezes perdida no sectarismo e no caciquismo de certas lideranças. Não por acaso, muitos dos focos de crescimento da extrema-direita se encontram em localidades tidas como refúgios comunistas ou socialistas, onde a utopia ou a ideologia revolucionária foram enterradas, como um machado de guerra que cedeu espaço à relação de forças que excluem uns e proveligiam outros.

 

Outra coisa que favorece veementemente o crescimento do fascismos é a teoria do "mercado de ideias" (popularizada pelo juiz da Suprema Corte dos EUA, Oliver Wendell Holmes) que transforma a fala, o discurso e a liberdade de expressão, numa espécie de "commodities", cujo alcance é controlado pelas empresas de tecnologia, donas das redes sociais, onde "todos têm direito à sua opinião", mas cuja importância é bastante estratificada, o que demonstra as relações de poder com que lidamos hoje. Não por acaso, a maioria desses grupos fascistas, no mundo e também em Portugal, se reúnem, surgem e multiplicam, em torno de grupos de Facebook, vídeos de YouTube, chats de What'sApp, redes de Twitter, notícias falsas e robôs e manadas de haters.

 

Precisamos, portanto, de uma organização antifascista que se una em torno de um ideal anti-autoritarismo, antirracista, contra a xenofobia, o machismo, em prol de um feminismo revolucionário, em torno de uma alternativa socialista e que seja capaz de rejeitar frontalmente qualquer tipo de tolerância com os intolerantes, que lhes rejeite espaço, que lhes roube protagismo e que, se necessário, invista na coragem física para os barrar no espaço público. Parece demais? Bom, nada é demais em prol da vida, a vida que uns vêm ameaça todos os dias e que outros perderam para sempre, apenas no último ano. Uma vida de abusos que muitos vivem diariamente e na qual não se podem dar ao luxo da moderação, a mesma que resvala sempre na ascenção de quem defende o fim do direito à vida, existência e igualdade entre todos.

 

Para derrotar o fascismo, todos os dias e a longo prazo, precisamos atacar os seus pilares, que assentam tanto na supremacia branca, como no mito da "meritocracia" (o ópio das elites), na heteronormatividade, na dominação de classe, no colonialismo, no imperialismo económico. Precisamos de uma alternativa revolucionária socialista, anti-autoritária, contra a pobreza, as crises, as desigualdades, os conflitos e agora a pandemia, que alimentam o fascismo. Da mesma forma que precisamos entender que não é possível vencer os fascistas em eleições de peito aberto e com a mesma retórica partidária de sempre, é necessário que sejamos melhores na nossa política do que eles nas suas ameaças de terror e ódio.

Imagem de Nuno Saraiva Art, "ESTES MASCARALHOS." - Inimigo Público 14.08.2020.

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